Estereótipos de gênero e como eles me impediam de ser feliz

 

“Um dos problemas que tenho para me relacionar romanticamente é que costumo atrair pessoas que pensam que sou algo que não sou. Eles enxergam as fotos de cupcakes e confeitaria no meu Facebook, as roupas coloridas e as saias, o batom cor-de-rosa e uma imagem de feminilidade. Depois eles se decepcionam com algo que nunca prometi”.

Isso é um texto adaptado de uma fala de uma amiga minha, que de fato é tudo isso que diz enxergarem nela, mas que não é só isso. Ela também já fez prova para entrar na aeronáutica, costumava ver dezenas de animações japonesas violentas por mês, jogava World of Warcraft e é uma das pessoas mais seguras de si, independentes e fortes que conheço. Ainda assim, ela continua sendo muito mais do que qualquer coisa que eu possa por nesse texto descritivo e sem profundidade, porque não é assim que pessoas funcionam.

Os possíveis pretendentes da minha amiga se decepcionavam quando percebiam que ela não tinha se apaixonado e nem fazia cara de boba quando eles passavam. Eles se frustraram por estarem atrás de uma moça carente e frágil por trás das roupas e olhos coloridos, mas não receberem uma ligação declarando saudades no dia seguinte. Eles se decepcionavam porque ela era tudo aquilo que eles achavam fofo, mas ela não era só aquilo. Que droga, ela tem profundidade. Por que não podia ser igual as meninas dos filmes que só suspiram e riem das piadas do mocinho?

Esse texto é para falar sobre construção de gênero e como ela me afetou por anos. Não quero escrever uma monografia – porque não tenho nem espaço de fala e nem bagagem para fazer os devidos recortes com propriedade, sei dos meus privilégios – mas vou falar de experiências pessoais. Essas questões foram nocivas para o meu desenvolvimento quando estava em busca de uma identidade e queria fazer parte de um grupo a ponto de abrir mão de quem era para estar dentro do estereótipo.

Eu amo culinária, vestidos floridos, estampas, maquiagem, cabelo comprido, dança e histórias de amor. Quero casar com um daqueles vestidos de princesa em um jardim, adoro animais, música pop chiclete e sou fã de Backstreet Boys. Nunca me envolvi com muitos caras, porque me apego muito fácil e romances casuais me prejudicam emocionalmente. Sei que nada disso é quebra de padrão ou revolucionário, mas só assumi ou descobri a maioria dessas coisas aos 18 anos, porque não queria que tivessem uma imagem “errada” de mim ou me desrespeitassem nos outros meios que frequentava.

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Amo barra sou

Não queria que meus amigos que me conheciam de eventos sobre cultura geek soubessem que eu tietava boyband. Achava que se eu fosse de vestido florido para um evento de vídeo game seria ainda mais desrespeitada no meio, já que basta ser mulher para te tratarem como inferior nesse tipo de lugar. Não queria me envolver com cozinha ou que soubessem sobre a minha vontade de casar com um vestido rodado, para não pensarem que eu era uma “mulherzinha dona de casa que quer ter três filhos”. Nem tenho certeza se quero filhos, talvez não queira.

Eu também gosto de punk rock, sou ateia, tenho posição política, jogo vídeo game e RPG, fiz artes marciais, bebo cerveja, leio ficção científica e fantasia medieval, assisto animações japonesas violentas, detesto Disney e gosto até de ver uma partida de futebol de vez em quando. O problema é que eu fui só essa pessoa por 18 anos, tentando não ser a outra parte de mim que descobri amar tanto nos últimos tempos. Coloquei uma máscara de durona para a vida toda e sou um pouco disso mesmo, mas gosto dos meus dois lados e não sou menos por causa de nenhum.

Nós aprendemos desde novas que ser mulher é ser fraca e inferior, portanto fazer qualquer coisa que seja considerada feminina te coloca dentro desse estereótipo. Ninguém quer ser fraca e inferior. Neguei coisas que amava porque não queria ser confundida com uma “mulherzinha” e o problema não está em mim, mas em um estereótipo machista reproduzido desde sei lá quando sobre o que é ser mulher e o que é ser homem, porque segundo eles ser “mulherzinha” é ruim.

Eu gosto de Backstreet Boys e The Clash, faço uma ótima cheesecake de Nutella e zerei Final Fantasy IX em japonês aos 10 anos. Existem várias coisas nas quais eu sou ruim, mas eu sou boa nessas outras coisas que não necessariamente se parecem. Você não tem o direito de construir personagens de comédias românticas com pessoais reais e minhas preferências não me tornam inferior ou superior às suas, muito menos se for usar como critério de julgamento um estereótipo machista.

Hoje eu faço questão de ter as roupas coloridas que evitei ter e fazer as atividades que antes adorava em segredo. Faço isso não só para ser feliz como eu gosto, mas também para poder chegar em uma partida de vídeo game com um nerdzinho babaca e ganhar sem precisar conquistar o respeito de gente pequena que não significa nada para mim. Porque bem, a opinião de homem machista não vale nada mesmo e preservar a minha felicidade e identidade real é mais importante. No fim das contas, sou eu quem saio ganhando. Isso é só um pouquinho (bem pouquinho mesmo) sobre onde começou o meu feminismo.

Gatos

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Merlin e Rawena são adoráveis e diferentes em quase todos os aspectos possíveis. Se conheceram em um dia qualquer no qual ele foi ao mesmo lugar que ela costumava frequentar sempre e se tornaram amigos rápido, considerando a desconfiança da moça. Mas apesar do grande apreço por Rawena, mesmo depois de alguns anos juntos Merlin não compreende muito bem o jeito que ela tem de lidar com os outros ao seu redor e as coisas que acontecem.

Rawena é arisca e desconfiada, tem medo de tudo, fecha a cara, levanta a mão e mostra os dentes de forma nada amigável. Ao mesmo tempo, é uma criatura sociável ao extremo, adora carinho, se entrega facilmente, gosta de colo sempre e fala pelos cotovelos. Ele soube de seu passado lá fora, das coisas que enfrentou para sobreviver e de seus motivos. “Você está segura agora”, Merlin tenta dizer, com carinhos e afagos, que aquele medo é irracional. O sistema de defesa dela, no entanto, tem dificuldades para processar essa lógica.

Já ele, ao contrário dela, teve uma infância feliz e tranquila. Todos têm problemas depois que cresce, é óbvio, mas os traumas na época que se está em formação parecem marcar de um jeito diferente. Merlin é pacífico e quieto, gosta bem menos de colo. Cafunés o agradam, principalmente os dados por Rawena, mas ainda assim o seu jeito é mais solitário que o dela. Isso a incomoda algumas vezes. Ela queria brincar, correr e estar com ele o tempo todo; mas Merlin precisa de espaço e tempo para si, apesar de amá-la em primeiro lugar.

“Eu sei que você gosta de mim e que é o seu jeito, mas eu preciso de mais companhia”, Rawena tenta dizer, pulando em seu pescoço e correndo pela sala, como forma de chamar a atenção. Merlin brinca de volta, como sempre faziam após o pôr do sol, mas explicou que não podia viver assim o dia inteiro. O seu tempo era diferente, a rotina social que precisava seguir para de sentir bem era menos intensa que a dela. “Chegaremos a um acordo que faça nós dois felizes”, afirma Merlin em um tom quase de pergunta. Ela esperava que sim.

Merlin e Rawena estão constantemente tentando se adaptar ao que é gostar, conviver e abrir mão de alguns caprichos por outro alguém. Cada um com seus problemas e peculiaridades, em busca de não deixar de ser quem são e ao mesmo tempo fazer o outro feliz. Não é tão fácil e nem tão natural quando a ficção quer fazer parecer juntar uma dupla com passado, manias e comportamento tão diferentes. Amar é complicado e eles sabem disso agora, mas ainda vale a pena.

Infinito e maravilhoso

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Nenhuma imagem expressa o ano de 2015 em sua totalidade, mas a UnB sempre será o retrato da minha felicidade nos últimos quatro anos e meio

2015 foi ótimo, né? Me sinto até indo contra a maré dizendo isso, mas para mim é a mais pura verdade. Passei os últimos anos me dedicando bastante aos estudos: a UnB era minha vida e prioridade total. Sempre. Mesmo que meu curso não seja lá o mais difícil do mundo de se formar (tenho consciência e não nego), mas tentei tirar algo a mais de toda a experiência. Até mesmo estagiei pouco, evitando trabalhar durante os semestres mais puxados, e mantive uma postura de exclusividade este ano.

Em 2014 eu trabalhei e economizei uma grana, porque este ano foi do meu TCC e da minha juventude. Somando tudo, cursei só 22 créditos durante 2015, para que pudesse fazer o melhor trabalho de conclusão de curso que conseguisse produzir diante da minha capacidade, tempo e área de interesse. Eu tenho orgulho dele. Não por ser o melhor trabalho que já vi na vida, não é e está longe de ser. Mas ele é tudo que eu queria que fosse e essa recompensa emprego nenhum me proporcionou.

Além disso, que me chamem de imprudente diante da circunstância, mas 2015 também foi o ano para gastar tudo que economizei em 2014. Eu nunca viajei tanto. Aproveitei a companhia dos meus amigos próximos, reencontrei amigos de longe, conheci gente nova, fiz umas maluquices de fã, fui na praia e vivi coisas que há muito nem lembrava como eram. Eu deixei ser e foi. Foi bem louco, foi bem intenso e foi incrível. Eu tenho um medo imenso de viver a vida e finalmente estou vencendo a batalha contra a covardia.

2016 será um ano de incertezas e eu sei das dificuldades. Terei um diploma e um mundinho meio hostil me esperando. O mercado de comunicação não é bom com os profissionais da área e quem não tem medo do desconhecido, afinal? Mas 2015 me preparou para lidar com isso ao me proporcionar felicidade e realização. Eu estou satisfeita com as minhas escolhas e pronta para um ano difícil em busca de novas oportunidades e vivências. Eu tenho muita sorte e a vida tem sido boa comigo. Por hoje, eu só tenho a agradecer. Que venha 2016.

Raiva

Eu detesto ficar triste, portanto estou sempre cheia de raiva. Tenho raiva quando fico frustrada, quando o que queria muito da errado e quando quebro a cara. Além disso, ainda por detestar a tristeza, acabo me alimentando também de inveja. Por que ele? Por que ela? Eu quero também, eu queria mais, eu mereço. Será?

Talvez os dois sentimentos (comparados com a tristeza, a frustração ou a decepção das quais corro) façam com que eu me sinta melhor a curto prazo, mas a longo prazo acaba comigo e com as pessoas próximas. Aprendi isso destro de casa e sempre desaprovei o comportamento, então como não consigo evitar repeti-lo?

Eu ainda não tinha visto esta atitude vinda da minha parte como um problema. Após quebrar a cara algumas vezes, só tinha cabeça para classificar como força e determinação. Mas isso não é verdade. Não há nada de errado em sentir, não há nada de grandioso em explodir.

Eu o amo, o compreendo agora, mas não quero cometer os mesmos erros. Não quero conquistar e perder as mesmas coisas, não quero ser igual tendo a chance de mudar.

Está na hora. Passou dela. É para ontem. Quero enfatizar minhas características positivas, ter a determinação de sempre e trabalhar melhor nisto, e não um sentimento de raiva travestido de força.

Deixemos a raiva para os lugares onde ela cabe e este é o primeiro passo de vários que ainda precisam ser dados. A época na qual eu precisava me defender com ira já passou.

Gorda, sim

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Eu sou gorda. Sempre fui. Já fui muito ou pouco gorda, mas magra nunca. Não sei o que é vestir P, não sei o que é usar um número menor que 42. Durante a maior parte da minha vida tive uma rotina de atividades físicas e alimentação mais saudável do que a maioria dos magros que conheço. Fiz capoeira (sou corda amarela), kickboxing, muay thai, dança de salão (forró, salsa, bolero e merengue), academia e mais de 10 anos de natação, tendo feito parte de equipe e competido em campeonatos.

Durante a minha adolescência eu fazia duas horas de exercício por dia de segunda a sábado. Durante quatro anos, não ingeria sucos com açúcar ou refrigerantes, além de não comer frituras e chocolate. Todas as minhas refeições eram controladas, ingerindo entre 900 kcal e 1000 kcal por dia. Eu pesava 67kg tendo 1m64 de altura. Vestia calça 42. Isso foi o mais leve que consegui ser. E você, quanto pesaria se fizesse tudo isso?

Já li vários textos e relatos sobre gordofobia que tratam da imagem feminina na mídia, os padrões inatingíveis e diversas outras coisas inumeráveis. Mas não é sobre isso que eu quero falar. Eu quero falar sobre como as pessoas dizem que é gordo quem quer. Pessoas hipócritas, sedentárias, que comem fast-food e preferem pegar o elevador do que subir um simples lance de escadas. Essa gente nasceu magra. O esforço que elas fazem para se manter assim é zero ou próximo disso. Eu não aceito gente assim me dizendo o que é ou não fácil para mim, o que é ou não possível, e o que é ou não simples força de vontade.

Emagrecer não é impossível para mim, passei a maior parte da minha vida em um meio termo no qual pesava mais que 67kg e menos do que hoje, que é o mais pesada que já estive. Passei muito tempo sem atividade física e ainda tenho dificuldades para voltar a comer da forma que queria, estou recomeçando agora, porque eu gosto de nadar e melhorar meu desempenho na piscina. Mas magra, de verdade, eu nunca vou ser. E você, magro, nunca vai saber o que é fazer tudo isso para se manter dentro do IMC recomendado pelas tabelas de academia.

Nunca escrevi sobre ser gorda, mas as pessoas nunca me deixaram esquecer disso. Não precisam me lembrar. Se hoje não me sinto à vontade para dizer um simples número em uma balança, sem dúvida a culpa não é exclusivamente minha. Apesar disso, nunca fui tão feliz quanto sou hoje, nem mesmo quando pesava meus 67kg. E eu nunca precisei machucar os outros gratuitamente para me sentir bem.

Agora já podem por um ponto final no ensino médio.

Fácil

Este texto é de 17 de fevereiro. Estava ainda decidindo se ia publicar, porque achava que era muita tolice divulgar algo tão pessoal sobre amor. Foi então que notei a redundância que era pensar assim e ter um texto com esta temática. Talvez uma publicação boba de adolescente seja o que preciso para me livrar da mania de infantilizar as coisas que sinto. Agradeço quem tiver paciência para ler, apesar de ser algo para mim.


Alguns de nós, humanos, passam o início da vida adulta tentando desaparecer com qualquer tipo de relação que fuja de uma total certeza de reciprocidade, buscando controlar situações incontroláveis. Temos medo de ouvir “não”, do fracasso e do que os outros vão dizer. Deixamos que sentimentos fortes passem sem contar para as pessoas, porque a essa altura já sabemos que é temporário.

Nossa vida se resume a viver o mais prático, a “ver no que vai dar”. O problema é que as coisas precisam de nós para acontecer, porque ninguém ganha na loteria sem comprar bilhete. Nos declaramos crescidos por não nos envolver e convencemos a nós mesmos de que esse é o auge da vida adulta e a prova da independência. Eu sou assim.

É difícil ir embora deste lugar quente e acolhedor que me mantém segura, quieta e sem ameaças externas. Eu tenho minhas alegrias e tristezas, derrotas e vitórias. Mas desaprendi mesmo foi a lidar com a rejeição pessoal de alguém, com o choro, com a paixão que não era nenhuma vergonha até os 17, mas hoje só a palavra já soa como besteira, como uma lamentação.

É mais fácil esperar que barreiras se formem e não seja mais necessário pensar a respeito. Logo a outra pessoa arrume alguém ou vai embora (ou você vai) e então se torna impossível, inviável. “Foi melhor assim, não é? Afinal, não ia dar certo mesmo”. Daí então passa. A adolescência é difícil, mas a vida adulta precisa ser assim mesmo: fácil. Sem dores. Cômoda. É como tem sido, mas eu não estou feliz.

Carta para Raila com 16 anos #QueridaEuMesma

Sei que você está passando por uma fase difícil, apesar de se envergonhar de dar tanta importância para os seus “problemas pequenos”, mas não tão insignificantes quanto você pensa. Quero que saiba que tudo bem ficar chateada com gente que te magoa, você não é infantil por isso. Não menospreze os seus sentimentos. Não deixe que as pessoas pisem em você e ainda te convençam de que a culpa foi sua. Não deixe que te façam acreditar que você não é uma boa companhia ou uma boa amiga. Você merece pessoas que te façam bem ao seu lado e está prestes a conhecer alguns dos melhores amigos que terá nos próximos anos, então não faça tanto esforço para agradar quem não valoriza suas qualidades.

Nós duas sabemos que você tem defeitos. E vai continuar tendo vários deles, não se preocupe muito com a busca por mudanças drásticas, não precisará delas para ser aceita pelos seus novos e melhores amigos. Esqueça todas estas pessoas que te deixam insegura a respeito do que falar ou não falar, em um futuro bem próximo você não vai mais precisar se culpar pelo que sente ou pensa.

Continue fazendo tudo que você ama! Nade, dance, vá ao cinema, leia muitos livros e escreva muitas fanfics. Tenha a mente aberta para aprender. Tudo isso vai moldar quem você se tornará no futuro. Mas não se autodeprecie pela sua aparência física ou sinta-se um lixo diante de recaídas bobas de dieta. Entenda: o problema não é com você. Não é ser magra que vai trazer a felicidade, porque quando você atingir este estágio vai estar tão gordinha quanto antes do Ensino Médio (prometo que estou trabalhando nisto sem o sofrimento que você enfrenta todos os dias).

Ah, sabe este moço que você ama tanto? Você pode viver sem ele. Um dia você vai perceber que o tipo de sentimento que tem construído neste relacionamento não é saudável, por mais que a intenção dele não seja te machucar. Sei que é complicado e o quanto ele é uma boa pessoa, mas ele está certo quando diz que vocês são diferentes demais para esta história dar certo. Seu destino é outro, algo totalmente diferente do que ele almeja para a vida dele. Siga em frente e deixe o tempo fazer o resto do trabalho, não molde o que você pensa a partir dos desejos de outros, mesmo que por amor verdadeiro.

Por fim, sei que você ainda não viveu muitos dias tranquilos, apesar da sua idade. A tristeza é uma regra e a alegria a exceção. Mas para que tudo melhore é preciso que você se lembre sempre: você não é, nunca foi e nunca será obrigada a nada disso que está se submetendo para não ficar sozinha. A solidão é melhor do que uma má companhia. Fique bem.

Eu, a religião e Deus

Eu frequentei a igreja católica mais ou menos entre os meus 12 e 17 anos. Por vontade própria e iniciativa pessoal. Meus pais nunca frequentaram ou falaram que eu deveria. Apesar de ter muitos cristãos na minha família, ninguém nunca tentou me puxar para nada, nem mesmo minha avó paterna, que viveu toda a velhice exclusivamente para isto.

Não posso dizer que não tive períodos de afastamento durante os cinco anos que fui católica, mas em geral eu estava presente só em acreditar tanto. Eu tinha fé e não tem como dizer do que se trata, porque fé é indescritível. As celebrações me encantavam e emocionavam. Quem já foi em uma missa sabe o quanto todo o ritual é bonito. Fui em tantas que conseguiria celebrar uma sozinha, decorei todas aquelas “deixas” do padre e as respostas para elas.

Fiz um ano de catequese, mas desisti. Eu morria de preguiça de estudar no domingo de manhã, além de que o curso estava mais me fazendo desacreditar do que acreditar naquela religião que escolhi. Eu gostava muito de Jesus e Nossa Senhora (dela em especial, um dos motivos pelos quais eu era católica e não protestante), mas aquelas histórias não davam para mim. Foi quando comecei a mudar em uma velocidade quase imperceptível.

Com o tempo notei que não eram só as histórias que não me convenciam, várias coisas estavam na mesma lista. Eu percebi que toda a beleza que eu via nas missas eram, na verdade, exceção. Na maioria das vezes eu estava mais atenta ao menino gatinho da primeira fileira ou pensando pra onde a galera ia depois da missa.

Minha comoção diante daquele ritual acontecia poucas vezes, em geral quando eu ia até a igreja me sentindo mal. Eu chorava bicas e saía muito mais leve. Mas como não? Era um ritual de redenção, socorro e, acima de tudo, esperança. Tudo é montado para causar essa sensação e junto com a fé o resultado já é esperado.

Depois desta análise nunca mais a minha vida na igreja foi a mesma e as pessoas de lá me irritavam. Para mim, aquele cara que disse para amar ao próximo como a ti mesmo deve estar em algum lugar se perguntando onde foi que os seus ensinamentos se perderam no telefone sem fio da existência humana. E o pior: entre as pessoas que mais diziam estar com ele.

Hoje não sou mais cristã e muito menos católica, mas não tinha como ser diferente. Eu nunca soube conviver bem com a incerteza e com regras que não posso contestar. Pergunte nas escolas que estudei: eu era uma rebelde. Sem causa ou com causa, mas nunca muito boa em servir sem questionar acima de todas as coisas. No entanto, também não sou ateia, para alguém com a fé que tive acho que nunca conseguiria.

Eu não acredito em religiões, livros sagrados ou deuses criados por homens e instituições. Cada um chama de Deus o que quer. Eu chamo de Deus o que considero mágico e anseio por entender, a raça humana ter chegado onde estamos hoje, a existência de um planetinha tão propício para o desenvolvimento da vida, um universo tão imenso e eterno e o amor verdadeiro diante de tantas coisas negativas neste mundo cheio de pessoas que, na prática, estão vazias de Deus.

Dois anos sem relaxar

Não faço escova progressiva há dois anos. Nem para “abaixar”, “hidratar” ou, a pior delas, “relaxar” o cabelo. Eu costumava dizer que recorria a esses métodos porque era mais fácil de cuidar e que exigia menos tempo, mas adivinhem só: isso não é verdade. Eu poderia passar parágrafos discorrendo sobre como algumas mulheres acordam todo dia mais cedo para passar, religiosamente, chapinha no cabelo, enquanto o meu só precisa ser bem lavado e penteado de três em três dias. Falam que os produtos para o meu cabelo são mais caros. Mas eu economizo em salão, já que hoje eu vou ao cabeleireiro três vezes ao ano. No entanto, o assunto é batido. Eu não preciso repetir essas coisas. Além de que não foi nenhum desses motivos que me fez, já antes da minha última progressiva, desistir de “relaxar” o cabelo.

Eu vou contar uma história…

Quando estava na quinta série, uma professora disse algo que nunca vou esquecer. Meu cabelo era bem longo e com volume. Não vou falar que cuidava bem dele, afinal, era uma criança e ainda por cima fazia natação e estava molhando constantemente. Meu cabelo fica em contato com cloro de piscina três vezes por semana e eu tinha outros problemas básicos, como simplesmente não saber pentear direito. A tia Suzy disse: “Raila, prende esse cabelo, está me dando agonia”. Assim, entre aspas, porque foi exatamente essa a frase. Talvez possa parecer que não foi nada demais, que estava calor e por isso o sentimento dela. Mas não era isso. Eu sabia que não era e meus coleguinhas também sabiam, porque todos notaram o tom de voz usado na frase.

Por mais que eu tenha crescido em uma cidade goiana, periferia do Distrito Federal, onde a maior parte das pessoas não tinha muito dinheiro e nem cabelo de europeu, muitas meninas, na época, já iam ao salão com a mãe para esticar os fios. Tiveram outros casos de preconceito e eu sabia que aquela não era uma opinião apenas da minha professora. Na mesma época espalharam boatos de que eu estava com piolho. Tanto cabelo e tão alto, talvez essa menina tenha piolho, não é? Faz muito sentido mesmo. Com o tempo eu passei a acreditar de verdade que cabelo liso era mais prático, bonito e, a partir daí, até higiênico. No dia seguinte eu fui de cabelo preso e um ano depois comecei a alisar.

É claro que não para por aí. Em todos os salões de beleza que eu ia até então alguém queria me enfiar um produto de “relaxamento”. Só para “abaixar o volume” um pouco. Claro que era pelo lucro, mas nunca vi oferecerem uma permanente para ninguém de cabelo liso. Uma cabeleireira uma vez insistiu que raspar a minha nuca era uma ótima ideia. Minha mãe acreditou, eu também e não publicarei fotos dessa época. Às vezes a frase era inocente, como: “nossa, seu cabelo é tão grande, com uma escova deve ficar lindo”. Talvez ninguém percebesse, mas eu percebia.

Mas quando estava com 16 anos entrei para equipe de natação. Eu treinava cinco dias por semana e simplesmente não conseguia arrumar tempo para fazer “relaxamento”. Nessa época percebi uma coisa: meu cabelo não era feio. Ele era bem bonito, até. A partir daí, conheci uma cabeleireira que sabia como cuidar de mim e que respeitou meus cachinhos. Também troquei de penteado e comprei alguns cremes. Foi um alívio. Não, mais que isso, foi um tapa na cara da sociedade. Talvez ninguém tenha, de fato, percebido a minha postura de quem venceu uma revanche, afinal, só quem apanha lembra, quem bate nunca, né? Mas era essa a sensação toda vez que alguém perguntava como eu deixava o meu cabelo tão enroladinho e falava como ele era lindo, que eu nunca deveria alisar.

E é por isso que eu não “relaxo” o meu cabelo. Não pelos elogios citados, mas porque ele é lindo mesmo, independente do que tenham dito em qualquer época da minha vida, inclusive atualmente. Eu não estico, puxo ou faço testes químicos em mim mesma e nada do que digam vai me convencer de que não seja uma vontade incontrolável do próximo de ter o cabelo como o meu.

 

Feliz 2013

Nesse ano que se passou aconteceram muitas coisas ruins, boas e outras que ainda estou decidindo o que foram. Aprendi a perdoar de coração as mágoas do passado, uma das minhas maiores dificuldades. Evitei desgastes tolos e passei a aceitar quem sou. Aprendi que nunca devemos apontar para o próximo e culpá-lo por qualquer sentimento que nos pertença, pois somos todos responsáveis por nós mesmos.

Conheci muita gente legal e fortaleci laços de amizade. Ganhei verdadeiros irmãos de pais diferentes. Fui uma grande amiga muitas vezes e nem tanto outras. Adotei minha gatinha sapeca, Rawena. Tirei minha carteira de motorista e mudei do lugar onde morava desde que havia nascido. Repensei meu conceito de certo, errado e espiritualidade.

Fui a tantas festas que não consigo nem mesmo contar. Virei noites, ri, dancei, bebi e me diverti sinceramente. Fui Pikachu e Tartaruga Ninja, Realizada! Amei por uma semana e matei a vontade. Viajei para São Paulo, dei o primeiro abraço depois de sete anos e assisti a um dos maiores espetáculos da minha vida junto de pessoas maravilhosas: Lady GaGa!

Apaixonei-me ainda mais pelo meu curso da faculdade. Fiz besteira. Fiquei em dúvida umas três ou quatro vezes a respeito do que quero para o futuro e até agora não sei muito bem a resposta. Reprovei matéria por pura babaquice e peguei uma greve de dois meses na universidade. Formei no Inglês. Fui vítima de um assalto à mão armada, sobrevivi ao fim do mundo e notei que amo viver.

Obrigada mãe, amigos, UnB, sorte e Deus.

Que 2013 seja ainda melhor. Os planos estão feitos.