Animal racional

O texto a seguir não é um ataque, mas sim um desabafo do que estou sentindo faz um tempo. Só isso. Eu também não fiquei relendo, reescrevendo. Pode ser que tenha erros de concordância por causa disso. Não ligo também.

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Triste os poucos que pensam no conjunto dentre os animais que só pensam no próprio umbigo. Se gabam de pensar tanto, mas só o fazem quando é em si. Gostam de falar de coisas que não viveram, opinar sobre o que não entendem e julgar como pequeno o sentimento alheio sem saber o que é senti-lo. O próprio choro é sempre o com mais relevância, o próprio sorriso é sempre o que se originou da maior vitória. A dor alheia é mentira, invenção, vontade de chamar atenção, um corretivo do marido, para aprender a deixar de ser viado, porque esse preto safado é bandido, porque índio não gosta de trabalhar só quer terra de graça… Porque eu tive tudo na vida e não quero dividir com ninguém… É MEU! Eu mereci! Eu me esforcei! Esse latifúndio é do meu pai, ele que comprou!

Mas sou eu quem estou enlouquecendo, alucinando, vendo coisa onde não existe, vendo segregação onde não tem… Espera, e aquele mendigo deitado lá na rua? Gente, esse mendigo aqui, vocês não veem? VOCÊS NÃO VEEM? Não. Agora eu que sou feminazi, gayzista, esquerdista, cotista, defensora dos pobres e oprimidos… Então vende esse carro aí e doa para caridade, vende esse celularzinho e doa para caridade. Você é branca, não? Olha sua pele, sua pele é clara, então você não pode ser considerada negra. Quer cota para se aproveitar da existência delas? Mas ninguém sabe da minha vida, só sou considerada uma completa babaca, aposto que virei sapatão também. Você viu o que ela disse? Viu o que ela disse? Você viu? Maluca, coitada! Eu falei que essa universidade idiota deixa todos assim, vendo coisa onde não existe. A UnB faz uma lavagem cerebral, todo mundo sai de lá extremista, maluco.

Escuto discursos a favor de ditadura militar dentro do meu próprio lar, choro por uma dor que não é minha, uma dor que nem conheço. Uma dor alheia que cansei de assistir. Minha família era pobre, minha família passou fome, mas eu não. Vocês deviam ver também, COMO PODEM NÃO VER? Como vocês não veem? COMO VOCÊS NÃO VEEM? Desisto! Parafraseando quem quer que tenha dito isso primeiro, a ignorância é uma dádiva. A estupidez é o conforto do animal mais incapaz do planeta terra. A humanidade é tão idiota que está exterminando o próprio habitat, coisa que nenhum outro animal irracional foi irracional o suficiente para fazer e ainda se julga muito inteligente. Mas está certo, humano esperto é aquele que não pensa, já que a ignorância é o calmante dos que fazem parte de uma espécie que está fadada ao fracasso e a autodestruição. Para que sofrer? É o nosso fim de qualquer jeito, não há mais providência a ser tomada, esse é o mundo real.

Disseram para a criança de 13 anos que um dia fui que os que fizessem maldades iriam para o inferno, mas então que pecados cometeram essas pessoas jogadas nas ruas? Que pecados cometeram essas crianças de minissaia na beira da estrada? Que pecados cometeram esses meninos assassinados nas favelas? Alguém avisa aí em cima que foi um infeliz engano! Como querem que eu tema um purgatório quando muitos vivem, todos os dias, o castigo por um crime nunca cometido e os caras maus são recompensados todos os dias pelos seus atos?

Dois anos sem relaxar

Não faço escova progressiva há dois anos. Nem para “abaixar”, “hidratar” ou, a pior delas, “relaxar” o cabelo. Eu costumava dizer que recorria a esses métodos porque era mais fácil de cuidar e que exigia menos tempo, mas adivinhem só: isso não é verdade. Eu poderia passar parágrafos discorrendo sobre como algumas mulheres acordam todo dia mais cedo para passar, religiosamente, chapinha no cabelo, enquanto o meu só precisa ser bem lavado e penteado de três em três dias. Falam que os produtos para o meu cabelo são mais caros. Mas eu economizo em salão, já que hoje eu vou ao cabeleireiro três vezes ao ano. No entanto, o assunto é batido. Eu não preciso repetir essas coisas. Além de que não foi nenhum desses motivos que me fez, já antes da minha última progressiva, desistir de “relaxar” o cabelo.

Eu vou contar uma história…

Quando estava na quinta série, uma professora disse algo que nunca vou esquecer. Meu cabelo era bem longo e com volume. Não vou falar que cuidava bem dele, afinal, era uma criança e ainda por cima fazia natação e estava molhando constantemente. Meu cabelo fica em contato com cloro de piscina três vezes por semana e eu tinha outros problemas básicos, como simplesmente não saber pentear direito. A tia Suzy disse: “Raila, prende esse cabelo, está me dando agonia”. Assim, entre aspas, porque foi exatamente essa a frase. Talvez possa parecer que não foi nada demais, que estava calor e por isso o sentimento dela. Mas não era isso. Eu sabia que não era e meus coleguinhas também sabiam, porque todos notaram o tom de voz usado na frase.

Por mais que eu tenha crescido em uma cidade goiana, periferia do Distrito Federal, onde a maior parte das pessoas não tinha muito dinheiro e nem cabelo de europeu, muitas meninas, na época, já iam ao salão com a mãe para esticar os fios. Tiveram outros casos de preconceito e eu sabia que aquela não era uma opinião apenas da minha professora. Na mesma época espalharam boatos de que eu estava com piolho. Tanto cabelo e tão alto, talvez essa menina tenha piolho, não é? Faz muito sentido mesmo. Com o tempo eu passei a acreditar de verdade que cabelo liso era mais prático, bonito e, a partir daí, até higiênico. No dia seguinte eu fui de cabelo preso e um ano depois comecei a alisar.

É claro que não para por aí. Em todos os salões de beleza que eu ia até então alguém queria me enfiar um produto de “relaxamento”. Só para “abaixar o volume” um pouco. Claro que era pelo lucro, mas nunca vi oferecerem uma permanente para ninguém de cabelo liso. Uma cabeleireira uma vez insistiu que raspar a minha nuca era uma ótima ideia. Minha mãe acreditou, eu também e não publicarei fotos dessa época. Às vezes a frase era inocente, como: “nossa, seu cabelo é tão grande, com uma escova deve ficar lindo”. Talvez ninguém percebesse, mas eu percebia.

Mas quando estava com 16 anos entrei para equipe de natação. Eu treinava cinco dias por semana e simplesmente não conseguia arrumar tempo para fazer “relaxamento”. Nessa época percebi uma coisa: meu cabelo não era feio. Ele era bem bonito, até. A partir daí, conheci uma cabeleireira que sabia como cuidar de mim e que respeitou meus cachinhos. Também troquei de penteado e comprei alguns cremes. Foi um alívio. Não, mais que isso, foi um tapa na cara da sociedade. Talvez ninguém tenha, de fato, percebido a minha postura de quem venceu uma revanche, afinal, só quem apanha lembra, quem bate nunca, né? Mas era essa a sensação toda vez que alguém perguntava como eu deixava o meu cabelo tão enroladinho e falava como ele era lindo, que eu nunca deveria alisar.

E é por isso que eu não “relaxo” o meu cabelo. Não pelos elogios citados, mas porque ele é lindo mesmo, independente do que tenham dito em qualquer época da minha vida, inclusive atualmente. Eu não estico, puxo ou faço testes químicos em mim mesma e nada do que digam vai me convencer de que não seja uma vontade incontrolável do próximo de ter o cabelo como o meu.