Jogos Vorazes e Divergente: semelhanças, diferenças e problemas

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IMPORTANTE: Vai ter muito spoiler. Leia por sua conta em risco.

Antes de mais nada, é importante ser transparente a respeito da minha preferência pessoal quanto as trilogias de Jogos Vorazes (Suzanne Collins) e Divergente (Veronica Roth): eu gosto mais da primeira, mas não sou apaixonada por nenhuma delas.

Suzanne já tem 52 anos e um histórico profissional gigantesco, enquanto Veronica é uma jovem de apenas 26 anos que se formou em um programa de escrita criativa. Então, apesar de considerar Jogos Vorazes mais bem construído, este fator equipara as duas trilogias para mim. As obras são boas e ruins em pontos diferentes e vejo a importância das duas para falar de assuntos delicados com o público adolescente, como os problemas envolvendo governos sem representatividade popular e as lutas de classes.

Pois bem, as duas obras se passam em futuros distópicos pós-apocalíticos. Elas são narradas em primeira pessoa por suas respectivas protagonistas adolescentes. Em Jogos Vorazes temos Katniss Everdeen e em Divergente a garota é Tris Prior, ambas de 16 anos. Apesar de não serem os modelos ideais de heroínas feministas, Katniss e Tris são ícones de sucesso importantes em uma era onde Bella Swan e Anastasia Steele vendem milhares de cópias e arrastam um monte de gente para o cinema.

O problema no caso de Divergente é que Tris não é carismática. A partir de Insurgente você já não torce mais por ela. A garota toma decisões baseadas em coisas sem nexo e arrisca a própria vida sem necessidade. Sei que a autora explica os motivos pelos quais ela age desta forma, mas eu não consigo considerar essas motivações boas o suficiente e ainda achar que a protagonista é uma personagem forte.

Quando Tris finalmente morreu eu não senti nada além de uma leve surpresa. Não fiquei triste, porque para mim ela era uma pessoa depressiva que já não estava mesmo com muita vontade de viver (apesar de dizer que sim). No último livro da trilogia, ela se descreve como séria, mas eu diria que Tris era triste. A protagonista de Divergente é emocionalmente estável, frágil e até mesmo insegura. Apesar de batalhadora e determinada, Tris têm um toque de Bella Swan e isto me incomoda profundamente.

Já Katniss é uma personagem pela qual eu consigo torcer. Apesar de expor o que a deixa mal e vulnerável (como o fato de ter matado pessoas durante os jogos), Katniss não fica batendo na mesma tecla o tempo todo. Ela compreende melhor que algumas decisões precisavam ser tomadas. A Katniss tem atitudes realmente corajosas, ao invés de somente estúpidas e ousadas. Ela queria viver. Quando quase abriu mão da própria existência foi com o objetivo claro de salvar outras pessoas. Ela pensou, não agiu de forma impulsiva.

Apesar deste aspecto positivo, acredito que Suzanne teve dificuldade em transmitir a essência de Katniss ao leitor, assim como com a maioria de seus personagens. Mesmo quando a protagonista de Jogos Vorazes tinha sentimentos intensos, eu não conseguia sentir junto. Ela era carismática, mas Tris me pareceu uma garota mais legítima e convincente. Fico inclinada, no entanto, a culpar a péssima tradução para o português da trilogia de Jogos Vorazes, um trabalho claramente mal feito.

Sobre a evolução dos personagens em geral, senti que em Convergente todos os coadjuvantes foram abandonados e Veronica só se preocupou com o casal principal. A trilogia termina com dezenas de histórias mal contadas ou esquecidas, fatos jogados na cara do leitor sem explicação. Eu queria entender direito o porquê do Peter ser daquele jeito agressivo e saber o que o Caleb tem a dizer a respeito das decisões ruins que tomou, mas fiquei a ver navios.

Já as poucas histórias mal contadas de Jogos Vorazes não me causam o incômodo que senti ao terminar Divergente. Quando uma obra se quer começa a narrar uma parte da história é uma coisa, mas quando o autor enche o livro de eteceteras é frustrante.

Algo que me deixou inquieta em Jogos Vorazes foi a quantia de páginas que Suzanne gasta descrevendo roupas, enquanto cenas mais importantes ficam mal explicadas e personagens permanecem sem backgrounds detalhados. Vejo que em Divergente a autora gasta mais energia falando dos sentimentos da protagonista, o que, mesmo que repetitivo, parece mais relevante do que figurinos.

A respeito dos romances, a preferência depende muito do gosto do leitor. Em Jogos Vorazes existe o triângulo amoroso, mas a parte física que o envolve é deixado um pouco de lado. Os conflitos acontecem muito mais dentro da cabeça da Katniss e os relacionamentos são muito menos físicos do que em Divergente. Além disso, a protagonista parece ser muito mais independente em relação a Gale e Peeta.

Este aspecto mais psicológico das relações de Katniss permitiu que Suzanne explicasse com cuidado as diferenças dos dois rapazes sem parecer artificial ou forçado. Gale é um rebelde revolucionário e guerreiro, ele é fogo como Katniss. Mas Peeta é calmo, protetor e amável, escolhendo ela acima de qualquer outra coisa. Os traços de personalidade foram mostrados com cautela e com uma naturalidade quase imperceptível, a narrativa flui.

Porém, os backgrounds de Peeta e Gale não foram bem construídos. O leitor até fica sabendo razoavelmente da vida deles, mas em geral só conhecemos a personalidade, não o histórico. Os personagens vivem em um distrito que leva a vida na miséria, portanto o background é implícito. A gente não sabe exatamente o que levou os personagens a serem como são.

O aspecto do background é levado muito mais a sério em Divergente. Quatro é tão protagonista da história de Veronica quanto Tris, sendo que no último livro ele até narra junto com ela. O leitor sabe tudo da vida dele: os medos, as vitórias, as derrotas, os porquês de cada um de seus traços de personalidade etc. E para quem gosta de um romance a obra tem 200% a mais deste fator do que Jogos Vorazes.

A Tris pode até demorar para chegar aos finalmentes com o Quatro, mas a cada dois capítulos tem uma cena de contato físico. Considerando a quantia absurda de pontas soltas que a autora deixou na obra só para inserir todo o romance, acredito que estas cenas poderiam ser cortadas sem prejudicar a história, mas foi o enfoque escolhido por Veronica.

Só o que me irrita no romance de Divergente é que Quatro e Tris nunca evoluem como casal. Durante três livros eles dizem que vão parar de mentir um para o outro e que vão melhorar como pessoas, mas voltam a cometer os mesmos erros idiotas. Parece um relacionamento que não é saudável e não caminha para lugar nenhum, onde ambos são muito dependentes um do outro.

Quanto aos problemas enfrentados por Katniss e Tris em suas histórias principais, eu também me identifico muito mais com a obra da Suzanne, e não por achar que esta fala de um problema maior do que Veronica. As duas trilogias trabalham com tramas muito sérias e importantes, mas em Jogos Vorazes as pessoas realmente resolveram o problema no fim. Eles derrubam o governo, instalam um novo sistema e param com os jogos.

Em Divergente é passada uma mensagem quase de paz mundial no fim da obra, enquanto não tem nada disso. A autora não fez jus ao universo que criou. Tris luta, luta, luta e morre para salvar uma cidade. Uma pequena região que está nas mãos de todo um país controlador. Eles não resolveram quase nada e parecem, de fato, não se importarem com isto. Os experimentos continuam acontecendo em outras regiões dos Estados Unidos, inocentes ainda estão morrendo e nós se quer sabemos quem são essas tais pessoas más do governo. Para mim não fez sentido.

Como conclusão, eu diria que Divergente tem um aspecto de imersão maior, tanto pela qualidade da tradução, quanto pela capacidade da autora que gerar compreensão a respeito dos sentimentos dos personagens. Ainda assim, todos em Jogos Vorazes são muito mais carismáticos e fortes, principalmente a protagonista. Suzanne deu uma conclusão mais satisfatória ao leitor e realmente resolveu o conflito da história.

Suzanne Collins e Veronica Roth são habilidosas de formas diferentes e qual obra o leitor vai preferir tem muito a ver com o que ele prioriza em um livro. Conflitos internos, romance, problemas familiares e um toque de ação: Divergente. Política, revolução, publicidade de guerra e força feminina: Jogos Vorazes.

Mas para quem realmente quer ler uma grande obra de futuro distópico baseada em um governo totalitarista e narrada em primeira pessoa, deixe as trilogias adolescentes de lado (que eu também adoro, para deixar claro) e procure em outras estantes da livraria. George Orwell está aí com 1984 fazendo este tipo de obra com excelência melhor do que ninguém, um grande próximo passo para quem adorou Jogos Vorazes e Divergente.

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E quem vai vencer a Guerra dos Tronos?

Já faz um tempo considerável que estou envolta pelo universo de literatura fantástica medieval de As Crônicas de Gelo e Fogo – ou mais conhecida, devido a série da HBO baseada na obra, como Game of Thrones – autoria de George R. R. Martin. A série começou a ser publicada em 1996, possui atualmente cinco livros já lançados (tendo cada um de 700 a 1000 páginas) e previsão para a publicação de mais dois antes de chegar ao fim.

A história pode ser vista como tendo dois núcleos principais: o primeiro e o maior deles conta a história na Guerra dos Tronos, quando após a morte do rei Robert Baratheon as famílias mais importantes e poderosas dos Sete Reinos – Starks, Targaryens, Lannisters, Baratheons e outras aliadas ou com menor influência – disputam a posse do Trono de Ferro e o domínio dos Sete Reinos. O segundo núcleo é contado, em geral, pelo ponto de vista de Jon Snow, filho bastardo de Eddard Stark. Snow se junta a Patrulha da Noite, que tem a função de guardar a Grande Muralha que fica ao norte protegendo os Sete Reinos de um velho mundo sombrio e desconhecido, que esteve quieto por um longo tempo e parece cada vez mais próximo do despertar.

Apesar de muitas vezes comparada com outras obras, como O Senhor dos Anéis (J. R. R. Tolkien, publicada em 1954), As Crônicas de Gelo e Fogo possui uma leitura mais fácil e menos cansativa do que a proporcionada por Tolkien. Não deixando a desejar em nenhum dos pontos exigidos pelo seu público alvo, George R. R. Martin criou incontáveis personagens e diversas histórias menores durante o desenrolar da trama, além da indispensável fantasia do gênero, como dragões, lobos gigantes, alquimistas e outras criaturas ainda “para lá da muralha”.

Para as garotas que gostam de um bom épico fantástico, um dos pontos que se destacam em As Crônicas de Gelo e Fogo, respeitando a lógica de uma obra baseada na Idade Média, George R. R. Martin nos apresenta personagens femininas fortes, influentes e inteligentes. Já para quem não gosta de ler, mas ainda sim se interessa pelo gênero, a adaptação para a televisão feita pela HBO é incrivelmente fiel a original, sendo todas as cenas de violência e sexo muito bem feitas. Vale a pena cada hora gasta com a obra.

Glee – Minorias sem estereótipos

Passei os últimos quatro dias mergulhada em Glee e sendo obrigada a engolir tudo de ruim que havia, de forma preconceituosa, dito a respeito da série. Para quem nunca assistiu e associa automaticamente a High School Musical ou algo do gênero, assim como eu fiz, pare agora mesmo e apague essa imagem de sua cabeça. Assumo que com o tempo me tornei aversão a certos gêneros de livros, filmes e séries, principalmente os que envolvem colegial e conflitos de adolescência, mas dessa vez fui obrigada a aceitar meu erro e tirar o chapéu para Ryan Murphy, um dos principais criadores da série.

Glee fala dos excluidos, dos descriminados e dos comuns. O que isso tem de diferente? Hoje em dia mais nada, virou clichê. As minorias, juntas, se tornaram a maioria. Ninguém é perfeito e personagens perfeitas torna dificil a identificação do público, fazendo a indústria investir mais no assunto, o que explica, por exemplo, a presença do homossexualidade em praticamente qualquer obra de ficção da atualidade ou de filmes onde a garota sem nenhuma qualidade aparente encontra um principe encantando (ou um vampiro encantando, se querem que eu seja mais específica). Mas um roteiro não se torna original pelo assunto e sim pela forma como esse é trabalhado. Algumas histórias tentam imitar a vida real falando das minorias, mas são superficiais, unilaterais e extremistas. Por que uma pessoa gorda ou negra não pode ser o personagem principal de um romance comum, sem estereótipos? Por que um homossexual precisa ser sempre retratado como alguém não aceito pela família? Minorias e excluidos possuem uma personalidade e uma vida que vai além de seus rótulos, são seres humanos com outros defeitos e qualidades, problemas amorosos, vida social, alegrias, sonhos, derrotas e realizações. As pessoas crescem, a vida as vezes é injusta e outras vezes pode ser maravilhosamente generosa. Pode ser que precisemos abrir mão de um sonho por conta de outro, nem sempre se pode vencer, mas o importante é o que se tira de todas as experiências. É sobre essa complexidade humana que Glee fala, sobre os caminhos que podemos tomar durante a estrada da vida e as diversas coisas que podem acontecer sem que tenhamos absolutamente nenhum controle sobre isso. Além disso tudo a série ainda consegue ser divertido, leve e engraçado.

Talvez alguns fiquem desestimulados a assistir pelo estilo musical ou pelo simples fato de se tratar de um musical. Realmente, Glee não é eclético, a música pop e os clássicos dos musicais tem, claramente, prioridade no roteiro, mas devo dizer que chegou a um ponto que, de tão envolvida pela história, nem me importei mais se conhecia ou gostava das canções. Apesar das características básica dos musicais, como pessoas que hora ou outra começam a cantar do nada por qualquer motivo, para quem quer conhecer algo diferente e tem algum tipo de preconceito com o gênero, é uma opção maravilhosa de início.

 

Aos meus amigos fanáticos por Glee que me fizeram ter curiosidade de conferir a série, obrigada por darem um tapa na cara do meu preconceito.

Minha descoberta sobre Almodóvar

A Pele que Habito (La Piel que Habito, no original) conta a história de Robert Ledgard (Antonio Banderas), um médico cirurgião estético que, após perder sua esposa deformada pelo fogo em um acidente, começa a desenvolver uma pele resistente a diversas coisas. No entanto, durante esse processo, passa por cima de qualquer tipo de princípio.

A primeira vez que ouvi falar do filme espanhol A Pele Que Habito foi na faculdade, quando minha professora indicou e discursou sobre a genialidade do mesmo. Comentei com alguns amigos e eles disseram estar loucos para assistir e que Almodóvar (o diretor, roteirista e produtor) era fantástico. Tudo bem, intelectuais, cults e hipsters de plantão, já podem crucificar a estudante de comunicação que não conhecia Almodóvar: eu realmente não sabia o que estava perdendo até ver A Pele Que Habito.

Notei logo de início que Almodóvar não era o tipo de cineasta escrupuloso, na verdade A Pele Que Habito oscila entre o absurdo, o doentio e o trágico. Quem não assistiu não deveria procurar pelo trailer, é perda de tempo, ele não diz nada e, para ser sincera, não há como resumir fielmente essa obra sem entregar o que mais de fantástico ela tem: a surpresa e o bizarro, o que foi e continua sendo um choque para mim.

Ainda não vi outros filmes do Almodóvar, apesar de estar ansiosa para isso, mas considerando as ótimas recomendações – além das pessoas inteligentes e de grande bom gosto que as deram a mim – poderia dizer que A Pele Que Habito não é a primeira obra chocante do famoso cineasta espanhol Almodóvar. Já fica a minha dica para as férias.

 

PS: Relevem qualquer erro de digitação, eu fiz o texto porcamente no bloco de notas porque meu computador está sem o word. Desculpe o atraso com as postagens e com o assunto também, o filme já até saiu do cinema, mas está valendo. =) Estou com uns problemas (amigos já sabem) então perdi por um tempo o ânimo de escrever. Mas vou tentar retornar por agora.