Sem inspiração

O ventilador girava e girava. O cômodo estava extremamente quente e abafado, mesmo com o ritmo insistente do objeto do teto, que trabalhava com sucesso quase nulo. Helena estava deitada em seu colchão duro, de barriga para cima, observando os movimentos circulares. Um de seus braços descansava ao lado do corpo, enquanto o outro pendulava do lado de fora da cama, sentindo com a ponta dos dedos o chão frio de cerâmica, onde descansava, perto de sua mão, uma caneta mordida. A camiseta velha que vestira estava completamente colada ao corpo suado, assim como o lençol retorcido que na noite anterior cobria a cama. As cortinas fechadas cor de vinho balançavam discretamente, mérito apenas do ventilador velho, já que da janela aberta não se tinha nem uma leve brisa. Sobre a cama, ao seu lado, um caderno velho aberto em uma página em branco refletia a única luz do quarto, uma lâmpada amarelada, estática e pálida. Revirou-se levemente, sem mudar de posição. Estivera deitada ali mais tempo do que seu tempo permitia. Forçou-se a pensar pela última vez, sem sucesso. Deu um longo suspiro, quando uma lágrima solitária escorreu pelo seu rosto.

– Pensei que esse era o seu sonho. – A voz era familiar e o sotaque gaúcho inconfundível. Luciana, sua amiga, falava baixo e devagar.

– E é. – Helena confirmou, se perguntando o que alguém que morava em Porto Alegre estava fazendo ali em Brasília, sentada na beirada de sua cama.

– Então por que está chorando? – Perguntou, erguendo as sobrancelhas.

– Sinto-me incapaz. – Confessou Helena. – Incompetente, medíocre… Quando vocês começaram a mentir para mim?

– Nós? – Franziu o cenho. – Nós quem? Eu nunca menti para você.

– Mentiu quando disse que eu era boa. – Explicou. – Não só você, algumas outras pessoas também.

– Não seja tola, eu não menti a respeito disso. É o que eu penso de verdade. Quem são essas outras pessoas?

– As Carols, por exemplo. – Respondeu secamente, antes de virar-se para o outro lado da cama e ver mais duas pessoas de pé ao seu lado. Helena sentou, de supetão, arregalando os olhos.

– Ninguém aqui mentiu para você. – Informou Caroline, de braços cruzados. – Vai falar pelas costas agora, é?

– Eu não estava falando pelas costas… – Desmentiu, confusa. Caroline morava em Aracaju, lembrou.

– Nós e mais um monte de gente acredita no seu potencial e você diz que todos estão mentindo por causa das habilidades de outras pessoas e sua mania de competição? – Perguntou Carola, fitando o teto, com seu sotaque do interior de São Paulo. Sua presença ali também era um tanto quanto insensata, mas Helena começara a se acostumar com a ideia. – Esse ventilador vai te enlouquecer.

Luciana levantou, caminhou devagar até o outro lado do cômodo e escancarou as cortinas, deixando a luz de fim de tarde entrar pela janela aberta, apagando o brilho morto e estático da lâmpada. Caroline pegou o caderno velho e jogou sobre Helena, enquanto Carola segurava sua mão esquerda, apertando entre seus dedos a caneta que antes rolava pelo chão.

– Não vamos deixar que se comporte como uma derrotada tendo chegado onde está. – Disse Caroline. – Agora levanta e vai fazer por onde continuar tendo o nosso respeito, porque nenhuma de nós tem amiga perdedora.

Helena sorriu e suas cortinas estarem mais uma vez fechadas, a lâmpada amarelada acesa, o ventilador girando freneticamente a sua frente e sua roupa completamente grudada ao corpo. Sentou-se, olhou para a folha em branco do caderno ao seu lado e recolheu a caneta do chão, começando então a escrever esse texto.

O Último

O chão coberto de grama iluminado pelo sol da manhã, com algumas árvores solitárias espalhadas sobre a sua superfície; seus troncos retorcidos e de casco áspero, algumas poucas de galhos quase nus, a sequidão do ar, o chão em sombras cheio de folhas marrons, mortas e quebradiças. Certas árvores arriscavam até mesmo florescer precocemente, algumas de forma singela, com uma ou duas flores, outras descaradamente, cheias de manchas lilás em suas copas. Diante daquela paisagem nostálgica e vazia podia-se notar o concreto, uma linha espessa formando um caminho cinza na paisagem natural, uma estrada. O clima estava quente, mesmo ainda sendo cedo, sendo perceptível a aproximação da primavera.

Cornélio caminhou devagar, a roupa simples e surrada, os óculos pendurados na gola da camiseta preta e os cabelos grisalhos, oleosos e mal cuidados. Sentiu a brisa fraca e morna daquele dia atingir o seu rosto, então respirou fundo, ouvindo o cantar distante dos bem-te-vis. Passara muitos anos, tantos que o tempo apagara todas as marcas físicas do passado e ele nem mesmo conseguia recordar direito tudo que acontecera naqueles dias.

O túnel formado pelas árvores que se encontravam sobre o caminho de concreto, próximo à antiga biblioteca, e o cheiro doce da vegetação que se aproximava, trazia lembranças vagas dos sorrisos jovens que já encheram o lugar. Na primeira vez que pisara ali, Cornélio tinha pouco menos de vinte anos e ainda era um aluno da faculdade. Aquele fora seu local favorito durante todo o período do ensino superior, por mais que agora já estivesse vazio.

Lembrava-se do regador de grama que, em tardes secas como aquela, mantinha a vegetação ao seu redor tão verde e viva que nem parecia pertencer à mesma paisagem das outras plantas do local. O ambiente costumava ser tão bom, alegre e jovial, sentira seu coração apertado por pensar que não tinha volta.
Continuando a caminhada deparou-se com um grande e antigo edifício de concreto, que aparentavam estar ali há um século suportando tempestades e calor, mas poderiam agüentar mais uns quinhentos anos. As dezenas de janelas de vidro escuro refletiam a luz e a paisagem ao redor, enquanto a sua sombra trazia o conforto da proteção. Em seguida voltou a sentir-se em pedaços, perguntou-se novamente se seria o único naquele lugar. Se havia mais alguém, será que ele também estava desmotivado?

Cornélio era o tipo de homem que sempre amou pessoas, barulho, risada e alegria, mas não tinha ideia de como resistira sozinho. Talvez fosse a esperança que o tivera mantido de pé por tanto tempo, mas até ela também o estava deixando. A cidade estava vazia, o país estava vazio e talvez, a essa altura, todo o planeta já tivesse sido afetado por aquele vazio também. Não sabia o que estava acontecendo, para onde as pessoas estavam indo ou sendo levadas, somente sabia que estava sendo assim.

Um dia acordou e sua esposa não estava na cama nem no trabalho. O processo se repetiu com seus filhos, irmãos, primos, sobrinhos… Depois de um tempo, quando estava indo para o serviço, notou que seus colegas também desapareciam. Ligou a televisão e soube que o mesmo estava acontecendo em todo o país. Primeiro sentiu medo de ser levado, mas depois de algumas semanas ou meses, acabou por desejar exatamente o contrário. Passou os últimos meses e anos passeando e relembrando sua vida. Agora estava sentado no jardim de sua antiga universidade, tão vazia quanto o restante dos outros lugares em que estivera. Fechou os olhos e não sentiu mais nada. A esperança se fora de vez e Cornélio também.