Vamos falar sobre gordofobia (parte 3)

Vamos falar de acessibilidade. Esse post vai ser um pouco diferente da minha proposta inicial da série sobre gordofobia. Eu falei na primeira parte que o assunto envolve a falta de acessibilidade e o fato de negarem direitos básicos para gordos, mas eu não acho que gente magra entenda de fato a dimensão do problema.

Hoje me deparei com uma publicação sobre acessibilidade do gordo em um grupo no Facebook que exemplifica perfeitamente o que eu queria dizer com isso. O debate era: “quais objetos ou lugares vocês têm mais dificuldade de usar e frequentar”? Aí vai a lista de algumas das coisas citadas nos comentários.

acessodogordo

Sabe o que é não ir em um boteco por medo de quebrar a cadeira ou por nem caber naquelas estreitinhas de plástico com braços? Imagina que louco

Algumas são óbvias, magros que não notaram só precisam pensar um pouco para imaginar que pessoas gordas não cabem em bancos ou passam em catracas de ônibus. Mas como se isso já não fosse péssimo o suficiente, imagina como é ir com vários amigos ao cinema, todos gordos, e ninguém poder sentar junto. As salas, ao invés de terem todas suas poltronas largas o suficiente, possuem acentos para gordos em pontos específicos, uma aqui e outra lá, todas separadas e em localizações horríveis.

Você ama parques de diversão, brinquedos loucos e radicais. Mas nunca vai com medo de acabar sendo uma experiência traumática e humilhante. Porque o limite de peso das atrações é ridículo (até 110kg algumas vezes), os sistemas de segurança não fecham e os bancos são apertados. Aliás, acentos são umas das coisas das quais mais temos medo, gordo não foi feito para sentar. Ninguém mandou ser gordo.

E para quem acha que o problema do gordo quanto ao que vestir é só roupa se engana: bijuterias e sapatos também não foram feitas para gordo. A moda não é para gente. O mundo não é para gente. Se sentir gente não é para gente. Afinal, se você já está gorda, por qual motivo se daria ao trabalho de se arrumar, não é mesmo? (Sim, existe a moda plus, mas estamos falando aqui de marcas famosas e mercado padrão).

Agora imagina algo um pouco pior: você senta em um banco de avião e o seu cinto não fecha. Chama comissário de bordo, explica baixinho enquanto as pessoas próximas escutam e ele traz um extensor de cinto para você: laranja e chamativo, com todos te olhando com nojo e pondo a culpa em você. O que custava fazer os cintos de todas as poltronas maiores? Bem, ninguém mandou ser gordo.

Por fim, imagine a pior das situações. Você sofre um acidente ou está em trabalho de parto e precisa ser levada para o hospital. Chegando lá, descobre que nenhuma cadeira de rodas ou maca serve para você. As agulhas disponíveis não servem para você e mesmo com muita dor é impossível te anestesiar para realização da cirurgia. Ah, e nessa parte eu nem estou usando um exemplo hipotético, olha aí:

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“Gordofobia não existe, ninguém morre de gordofobia” – me disseram uma vez uns babacas por aí. Agora imagina só uma emergência

Então é isso, amiguinhos. Eu não tenho muito como concluir isso, porque é tudo uma merda, não tem final feliz e nem perspectiva de que isso mude tão cedo. Mas a gente continua na luta e em busca de visibilidade para nossas causas, porque no momento é a coisa mais importante, não vamos parar na parte de elogiar ensaio fotográfico de gente gorda, tá pouco ainda isso aí.

E nem comecem com papo de “emagrece se tá difícil e mimimi” porque até onde eu sei gordo paga imposto e todos os serviços igual todo mundo, então tem que receber os serviços também, okay? É DIREITO ISSO, NÃO É PRIVILÉGIO. Até a próxima (sabe-se lá quando), vou tentar falar sobre patologização do gordo um dia, mas é um tema tão difícil que nem sei por onde começar.

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