Mas nem todo homem…

Me perguntaram uma vez se o meu namorado não fica chateado ou se ofende com as coisas que falo sobre machismo e opressão masculina nas minhas redes sociais e rodas de amigos. A resposta é sempre a mesma para essa pergunta que nem deveria existir: “não, porque não é sobre ele”. E eu não estou dando biscoito ao meu namorado por não fazer mais do que a obrigação dele não sendo um babacão, veja bem, mas se ele não se identifica como o receptor do que eu digo, então não existe motivo para ele se ofender. E caso se identificasse também não teria, porque gente escrota precisa ouvir verdades.

“Ah, mas nem todo homem/branco/hétero/magro é assim”. Certo, cara, e quem você está tentando convencer com esse discurso? Se você não é assim, parabéns por não fazer mais do que a sua obrigação. Esquedomacho (homens desconstruidões machistinhas de esquerda) adora receber aplauso de movimento feminista por ser o legalzão, mas adivinha só: tratar outra pessoa como igual não é motivo para ganhar medalha no peito, então só abaixa a bola e para de roubar espaço de fala dos outros.

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Robin: Mas nem todo homem… / Batman: Não é sobre você!

Eu vejo isso regularmente dentro do próprio movimento feminista. As minas do movimento negro falam do “feminismo branco” (termo para as feministas discípulas da Emma Watson que só pensam no próprio umbigo rico e branco) e logo aparecem as “mas nem todo branco” para jogar uma defesa. Idem quando o discurso é sobre gordofobia. Mas adivinha só: parece que são sempre as pessoas com as falas mais problemáticos que fazem esse tipo de coisa.

Se eu sou branca e cheia de privilégios, eu vou calar a minha boca e ouvir o que o pessoal do movimento negro tem a dizer. O que me cabe eu acato e melhoro, o que não me cabe eu deixo passar para o próximo que precisar ouvir aquilo. Ninguém pediu e nem liga para a minha história individual de branco privilegiado, porque quando alguém nessa posição começa a agir de forma defensiva é sempre em benefício próprio. Mas pela primeira vez na vida isso não é sobre você ou sobre mim (quando em posição de opressores).

Estereótipos de gênero e como eles me impediam de ser feliz

 

“Um dos problemas que tenho para me relacionar romanticamente é que costumo atrair pessoas que pensam que sou algo que não sou. Eles enxergam as fotos de cupcakes e confeitaria no meu Facebook, as roupas coloridas e as saias, o batom cor-de-rosa e uma imagem de feminilidade. Depois eles se decepcionam com algo que nunca prometi”.

Isso é um texto adaptado de uma fala de uma amiga minha, que de fato é tudo isso que diz enxergarem nela, mas que não é só isso. Ela também já fez prova para entrar na aeronáutica, costumava ver dezenas de animações japonesas violentas por mês, jogava World of Warcraft e é uma das pessoas mais seguras de si, independentes e fortes que conheço. Ainda assim, ela continua sendo muito mais do que qualquer coisa que eu possa por nesse texto descritivo e sem profundidade, porque não é assim que pessoas funcionam.

Os possíveis pretendentes da minha amiga se decepcionavam quando percebiam que ela não tinha se apaixonado e nem fazia cara de boba quando eles passavam. Eles se frustraram por estarem atrás de uma moça carente e frágil por trás das roupas e olhos coloridos, mas não receberem uma ligação declarando saudades no dia seguinte. Eles se decepcionavam porque ela era tudo aquilo que eles achavam fofo, mas ela não era só aquilo. Que droga, ela tem profundidade. Por que não podia ser igual as meninas dos filmes que só suspiram e riem das piadas do mocinho?

Esse texto é para falar sobre construção de gênero e como ela me afetou por anos. Não quero escrever uma monografia – porque não tenho nem espaço de fala e nem bagagem para fazer os devidos recortes com propriedade, sei dos meus privilégios – mas vou falar de experiências pessoais. Essas questões foram nocivas para o meu desenvolvimento quando estava em busca de uma identidade e queria fazer parte de um grupo a ponto de abrir mão de quem era para estar dentro do estereótipo.

Eu amo culinária, vestidos floridos, estampas, maquiagem, cabelo comprido, dança e histórias de amor. Quero casar com um daqueles vestidos de princesa em um jardim, adoro animais, música pop chiclete e sou fã de Backstreet Boys. Nunca me envolvi com muitos caras, porque me apego muito fácil e romances casuais me prejudicam emocionalmente. Sei que nada disso é quebra de padrão ou revolucionário, mas só assumi ou descobri a maioria dessas coisas aos 18 anos, porque não queria que tivessem uma imagem “errada” de mim ou me desrespeitassem nos outros meios que frequentava.

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Amo barra sou

Não queria que meus amigos que me conheciam de eventos sobre cultura geek soubessem que eu tietava boyband. Achava que se eu fosse de vestido florido para um evento de vídeo game seria ainda mais desrespeitada no meio, já que basta ser mulher para te tratarem como inferior nesse tipo de lugar. Não queria me envolver com cozinha ou que soubessem sobre a minha vontade de casar com um vestido rodado, para não pensarem que eu era uma “mulherzinha dona de casa que quer ter três filhos”. Nem tenho certeza se quero filhos, talvez não queira.

Eu também gosto de punk rock, sou ateia, tenho posição política, jogo vídeo game e RPG, fiz artes marciais, bebo cerveja, leio ficção científica e fantasia medieval, assisto animações japonesas violentas, detesto Disney e gosto até de ver uma partida de futebol de vez em quando. O problema é que eu fui só essa pessoa por 18 anos, tentando não ser a outra parte de mim que descobri amar tanto nos últimos tempos. Coloquei uma máscara de durona para a vida toda e sou um pouco disso mesmo, mas gosto dos meus dois lados e não sou menos por causa de nenhum.

Nós aprendemos desde novas que ser mulher é ser fraca e inferior, portanto fazer qualquer coisa que seja considerada feminina te coloca dentro desse estereótipo. Ninguém quer ser fraca e inferior. Neguei coisas que amava porque não queria ser confundida com uma “mulherzinha” e o problema não está em mim, mas em um estereótipo machista reproduzido desde sei lá quando sobre o que é ser mulher e o que é ser homem, porque segundo eles ser “mulherzinha” é ruim.

Eu gosto de Backstreet Boys e The Clash, faço uma ótima cheesecake de Nutella e zerei Final Fantasy IX em japonês aos 10 anos. Existem várias coisas nas quais eu sou ruim, mas eu sou boa nessas outras coisas que não necessariamente se parecem. Você não tem o direito de construir personagens de comédias românticas com pessoais reais e minhas preferências não me tornam inferior ou superior às suas, muito menos se for usar como critério de julgamento um estereótipo machista.

Hoje eu faço questão de ter as roupas coloridas que evitei ter e fazer as atividades que antes adorava em segredo. Faço isso não só para ser feliz como eu gosto, mas também para poder chegar em uma partida de vídeo game com um nerdzinho babaca e ganhar sem precisar conquistar o respeito de gente pequena que não significa nada para mim. Porque bem, a opinião de homem machista não vale nada mesmo e preservar a minha felicidade e identidade real é mais importante. No fim das contas, sou eu quem saio ganhando. Isso é só um pouquinho (bem pouquinho mesmo) sobre onde começou o meu feminismo.