Amor de mais, tecnologia de menos

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Eu odeio a Net de uma forma tão intensa que não sei colocar em palavras ainda

Veja que irônico o destino: o que eu considero meu primeiro namoro está sendo a distância. É meio tragicômica não só a situação, mas a forma como as pessoas olham para nós dois com cara de espanto, em particular os mais próximos. Estudamos juntos por quatro anos, sendo amigos por todo esse tempo, e decidimos nos envolver e namorar faltando menos de um mês para ele ir embora de Brasília. Ouvir as perguntas e as frases de “não sei como vocês conseguem” sobrou para mim, é claro, porque fui eu quem ficou no cerrado velho de meu deus.

Agora, existem coisas engraçadas a respeito de como funciona isso de relação à distância para nós. Muitos nos fizeram acreditar que o motivo principal para ser tão difícil é o contato físico sexual, dar uns amassos, uns beijos e aí por diante. Mas o mais complicado é, sem sombra de dúvida, a falta da companhia e o apoio silencioso naquele dia que não estamos com vontade de falar coisas com sentido, mas precisamos de um abraço e uma pessoa ao nosso lado.

Nós nos falamos por Skype todos os dias, vemos séries no Netflix juntos, acompanhamos The Voice pelo site da NBC, jogamos na Steam e ele até toca violão e canta algumas vezes. Mas sabe aqueles momentos que você só precisa estar com a pessoa ao seu lado, ambos quietos, em uma hora ruim ou de preguiça e sem falar nada? Isso não dá para simular pelo Skype. Mesmo que queiramos estar juntos com muita frequência, essas atividades cotidianas não solucionam todos os problemas da saudade e os dias ruins são os piores.

Compartilhar sentimentos positivos via internet é fácil, superamos essa fase. Claro que passear e conviver com os amigos junto da outra pessoa faz falta, mas isso é um impasse apenas chatinho no panorama geral. Já dividir tristezas suas e apoiar a outra pessoa nas dela, aí é um obstáculo de gente grande. Não rola um abraço, um agrado, uma companhia, uma massagem nos pés, aquele chocolate quente… Nada. Foi assim que eu percebi que as palavras não solucionam tudo e ainda estamos desenvolvendo a nossa técnica para lidar com isso.

Vai fazer três meses que estamos namorando e quatro que estamos juntos. Desde então, já nos vimos muito mais do que a maioria dos casais que se relacionam a distância que conheço. Somos uma dupla privilegiadíssima nessa história e sei que não é impossível lidar. Algumas vezes quem gostamos se muda para o outro lado do país ou do mundo e, por mais que eu não acredite na teoria da alma gêmea, pessoas com as quais nos relacionaríamos não estão em qualquer esquina. Eu nunca abriria mão da relação incrível que temos por causa da distância.

Porém, a mesma que ri quando falam que não sabem como conseguimos – achando tudo isso muito engraçado, porque nós dois sabemos que deixar de estar juntos por causa disso não seria uma opção – se pega refletindo sobre como a tecnologia ainda está atrasada em simular interação humana real. Depois que vivi um relacionamento a distância, me pego perguntando para amigos que mantém namoros internacionais com encontros anuais a mesma coisa que me indagam: “qual o segredo de vocês? Saudade dói demais”.

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