Gatos

originalcaats

Merlin e Rawena são adoráveis e diferentes em quase todos os aspectos possíveis. Se conheceram em um dia qualquer no qual ele foi ao mesmo lugar que ela costumava frequentar sempre e se tornaram amigos rápido, considerando a desconfiança da moça. Mas apesar do grande apreço por Rawena, mesmo depois de alguns anos juntos Merlin não compreende muito bem o jeito que ela tem de lidar com os outros ao seu redor e as coisas que acontecem.

Rawena é arisca e desconfiada, tem medo de tudo, fecha a cara, levanta a mão e mostra os dentes de forma nada amigável. Ao mesmo tempo, é uma criatura sociável ao extremo, adora carinho, se entrega facilmente, gosta de colo sempre e fala pelos cotovelos. Ele soube de seu passado lá fora, das coisas que enfrentou para sobreviver e de seus motivos. “Você está segura agora”, Merlin tenta dizer, com carinhos e afagos, que aquele medo é irracional. O sistema de defesa dela, no entanto, tem dificuldades para processar essa lógica.

Já ele, ao contrário dela, teve uma infância feliz e tranquila. Todos têm problemas depois que cresce, é óbvio, mas os traumas na época que se está em formação parecem marcar de um jeito diferente. Merlin é pacífico e quieto, gosta bem menos de colo. Cafunés o agradam, principalmente os dados por Rawena, mas ainda assim o seu jeito é mais solitário que o dela. Isso a incomoda algumas vezes. Ela queria brincar, correr e estar com ele o tempo todo; mas Merlin precisa de espaço e tempo para si, apesar de amá-la em primeiro lugar.

“Eu sei que você gosta de mim e que é o seu jeito, mas eu preciso de mais companhia”, Rawena tenta dizer, pulando em seu pescoço e correndo pela sala, como forma de chamar a atenção. Merlin brinca de volta, como sempre faziam após o pôr do sol, mas explicou que não podia viver assim o dia inteiro. O seu tempo era diferente, a rotina social que precisava seguir para de sentir bem era menos intensa que a dela. “Chegaremos a um acordo que faça nós dois felizes”, afirma Merlin em um tom quase de pergunta. Ela esperava que sim.

Merlin e Rawena estão constantemente tentando se adaptar ao que é gostar, conviver e abrir mão de alguns caprichos por outro alguém. Cada um com seus problemas e peculiaridades, em busca de não deixar de ser quem são e ao mesmo tempo fazer o outro feliz. Não é tão fácil e nem tão natural quando a ficção quer fazer parecer juntar uma dupla com passado, manias e comportamento tão diferentes. Amar é complicado e eles sabem disso agora, mas ainda vale a pena.

Anúncios

Amor de mais, tecnologia de menos

LDR.jpg

Eu odeio a Net de uma forma tão intensa que não sei colocar em palavras ainda

Veja que irônico o destino: o que eu considero meu primeiro namoro está sendo a distância. É meio tragicômica não só a situação, mas a forma como as pessoas olham para nós dois com cara de espanto, em particular os mais próximos. Estudamos juntos por quatro anos, sendo amigos por todo esse tempo, e decidimos nos envolver e namorar faltando menos de um mês para ele ir embora de Brasília. Ouvir as perguntas e as frases de “não sei como vocês conseguem” sobrou para mim, é claro, porque fui eu quem ficou no cerrado velho de meu deus.

Agora, existem coisas engraçadas a respeito de como funciona isso de relação à distância para nós. Muitos nos fizeram acreditar que o motivo principal para ser tão difícil é o contato físico sexual, dar uns amassos, uns beijos e aí por diante. Mas o mais complicado é, sem sombra de dúvida, a falta da companhia e o apoio silencioso naquele dia que não estamos com vontade de falar coisas com sentido, mas precisamos de um abraço e uma pessoa ao nosso lado.

Nós nos falamos por Skype todos os dias, vemos séries no Netflix juntos, acompanhamos The Voice pelo site da NBC, jogamos na Steam e ele até toca violão e canta algumas vezes. Mas sabe aqueles momentos que você só precisa estar com a pessoa ao seu lado, ambos quietos, em uma hora ruim ou de preguiça e sem falar nada? Isso não dá para simular pelo Skype. Mesmo que queiramos estar juntos com muita frequência, essas atividades cotidianas não solucionam todos os problemas da saudade e os dias ruins são os piores.

Compartilhar sentimentos positivos via internet é fácil, superamos essa fase. Claro que passear e conviver com os amigos junto da outra pessoa faz falta, mas isso é um impasse apenas chatinho no panorama geral. Já dividir tristezas suas e apoiar a outra pessoa nas dela, aí é um obstáculo de gente grande. Não rola um abraço, um agrado, uma companhia, uma massagem nos pés, aquele chocolate quente… Nada. Foi assim que eu percebi que as palavras não solucionam tudo e ainda estamos desenvolvendo a nossa técnica para lidar com isso.

Vai fazer três meses que estamos namorando e quatro que estamos juntos. Desde então, já nos vimos muito mais do que a maioria dos casais que se relacionam a distância que conheço. Somos uma dupla privilegiadíssima nessa história e sei que não é impossível lidar. Algumas vezes quem gostamos se muda para o outro lado do país ou do mundo e, por mais que eu não acredite na teoria da alma gêmea, pessoas com as quais nos relacionaríamos não estão em qualquer esquina. Eu nunca abriria mão da relação incrível que temos por causa da distância.

Porém, a mesma que ri quando falam que não sabem como conseguimos – achando tudo isso muito engraçado, porque nós dois sabemos que deixar de estar juntos por causa disso não seria uma opção – se pega refletindo sobre como a tecnologia ainda está atrasada em simular interação humana real. Depois que vivi um relacionamento a distância, me pego perguntando para amigos que mantém namoros internacionais com encontros anuais a mesma coisa que me indagam: “qual o segredo de vocês? Saudade dói demais”.