Vamos falar sobre gordofobia (parte 1)

Adivinhem só: vou transformar isso em uma série. Eu tenho lido e ouvido tanta coisa gordofóbica de gente próxima de mim, que em geral vive uma vida de desconstrução em tantos outros aspectos e ainda assim reproduz discursos gordofóbicos tão básicos. Me deixa bem triste e, mesmo com um pouco de preguiça, quero tentar fazer algo a respeito. Se você acha que esse papo todo é mimimi: este texto não é para você. Se já estou com preguiça de desconstruir quem está afim, imagine só quem não está, né?

Cada publicação da série vai ter três tópicos. A frequência de publicações vai ser aleatória mesmo, porque cansei de prometer periodicidades que não vou cumprir nesta vida. hehe. Qualquer dúvida honesta sobre o que eu disse comenta aí. Ou, se for meu amigo, chama na rede social de sua preferência.

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“A verdade é que eu sou gorda. É uma palavra. É um adjetivo. E eu não ligo.” – Tess Holliday, modelo.

Primeiramente, o que é a Gordofobia?

Gordofobia é a opressão sistemática contra gordos. Não é somente pressão estética ou bullying baseado em padrões de beleza, apesar de ambos também estarem vinculados a questão. Gordofobia é quando pessoas deixam de conseguir empregos, andar confortáveis em transporte público, encontrar roupas que caibam, são privadas de relações afetivas e atendimento médico de qualidade, além de diversas outros direitos simplesmente por serem gordas. Em geral, quanto maior a pessoa, mais cada um desses aspectos vai afetá-la. Existe a diferença da opressão do gordo maior para o gordo menor e é importante que cada um tenha consciência dos próprios privilégios.

Qual é a diferença entre a pressão estética e a gordofobia?

Vamos supor que você tenha orelhas ou nariz grandes, seja bem magro, tenha seios pequenos ou qualquer outra característica física que te incomode. Sempre temos esse tipo de insegurança com os nossos corpos e para as mulheres isso também está ligado ao machismo. É terrível? É. Mas você nunca chegou no hospital com vários exames alegando que a sua saúde está perfeita e mesmo assim foi instruído a fazer uma cirurgia para dar um jeito no seu nariz avantajado. Nunca disseram que não iam te contratar para uma vaga de balconista ou frentista por causa das suas orelhas. Você nunca ficou com medo de entrar em um ônibus e não caber em um banco ou passar na catraca.

Mesmo que acima do peso considerado o ideal pelos padrões de beleza, se seu único problema com o seu físico é não se sentir confortável com a própria aparência física, então você nunca sofreu opressão sistemática por causa disso. Gordofobia tem a ver com ter direitos básicos negados, enquanto a pressão estética tem muito mais a ver com como você se sente consigo mesmo, ainda que tenha sofrido bullying (que também é um problema terrível e deve ser combatido).

Lutar contra a gordofobia não é uma forma de fazer apologia à doença da obesidade?

O movimento contra a gordofobia não incentiva que pessoas fiquem gordas, só que elas sejam aceitas e tratadas como iguais. É sabido que quando se atinge certo peso é possível que isso aumente as chances de se desenvolver certas doenças, problemas de saúde e dores musculares ou nos ossos, mas ser gordo não faz de você, automaticamente, uma pessoa doente ou menos capaz. Ser muito magro também pode te deixar propenso a desenvolver doenças, mas tirando em casos de distúrbios alimentares severos, ninguém fiscaliza a saúde do magro. Também existem magros diabéticos e hipertensos.

Não existe problema nenhum em um médico que aconselha que o paciente não seja sedentário e se alimente bem, de fato são hábitos saudáveis. Gordofobia é pegar os exames perfeitos de um paciente em mãos, partir do pressuposto de que “se está gordo é porque come mal e não se exercita” e dizer que alguém precisa emagrecer “porque sim”. Além disso, não é porque a obesidade deixa uma pessoa mais propensa a desenvolver doenças que devemos privá-la de direitos básicos como transporte público, atendimento médico igualitário, se vestir e ter um emprego. Histórico familiar diz muito mais sobre a propensão de alguém para certas doenças e ninguém pede os exames da árvore genealógica inteira de alguém na entrevista de emprego.

Beijos de luz e até a próxima.

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