Raiva

Eu detesto ficar triste, portanto estou sempre cheia de raiva. Tenho raiva quando fico frustrada, quando o que queria muito da errado e quando quebro a cara. Além disso, ainda por detestar a tristeza, acabo me alimentando também de inveja. Por que ele? Por que ela? Eu quero também, eu queria mais, eu mereço. Será?

Talvez os dois sentimentos (comparados com a tristeza, a frustração ou a decepção das quais corro) façam com que eu me sinta melhor a curto prazo, mas a longo prazo acaba comigo e com as pessoas próximas. Aprendi isso destro de casa e sempre desaprovei o comportamento, então como não consigo evitar repeti-lo?

Eu ainda não tinha visto esta atitude vinda da minha parte como um problema. Após quebrar a cara algumas vezes, só tinha cabeça para classificar como força e determinação. Mas isso não é verdade. Não há nada de errado em sentir, não há nada de grandioso em explodir.

Eu o amo, o compreendo agora, mas não quero cometer os mesmos erros. Não quero conquistar e perder as mesmas coisas, não quero ser igual tendo a chance de mudar.

Está na hora. Passou dela. É para ontem. Quero enfatizar minhas características positivas, ter a determinação de sempre e trabalhar melhor nisto, e não um sentimento de raiva travestido de força.

Deixemos a raiva para os lugares onde ela cabe e este é o primeiro passo de vários que ainda precisam ser dados. A época na qual eu precisava me defender com ira já passou.

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Gorda, sim

plus

Eu sou gorda. Sempre fui. Já fui muito ou pouco gorda, mas magra nunca. Não sei o que é vestir P, não sei o que é usar um número menor que 42. Durante a maior parte da minha vida tive uma rotina de atividades físicas e alimentação mais saudável do que a maioria dos magros que conheço. Fiz capoeira (sou corda amarela), kickboxing, muay thai, dança de salão (forró, salsa, bolero e merengue), academia e mais de 10 anos de natação, tendo feito parte de equipe e competido em campeonatos.

Durante a minha adolescência eu fazia duas horas de exercício por dia de segunda a sábado. Durante quatro anos, não ingeria sucos com açúcar ou refrigerantes, além de não comer frituras e chocolate. Todas as minhas refeições eram controladas, ingerindo entre 900 kcal e 1000 kcal por dia. Eu pesava 67kg tendo 1m64 de altura. Vestia calça 42. Isso foi o mais leve que consegui ser. E você, quanto pesaria se fizesse tudo isso?

Já li vários textos e relatos sobre gordofobia que tratam da imagem feminina na mídia, os padrões inatingíveis e diversas outras coisas inumeráveis. Mas não é sobre isso que eu quero falar. Eu quero falar sobre como as pessoas dizem que é gordo quem quer. Pessoas hipócritas, sedentárias, que comem fast-food e preferem pegar o elevador do que subir um simples lance de escadas. Essa gente nasceu magra. O esforço que elas fazem para se manter assim é zero ou próximo disso. Eu não aceito gente assim me dizendo o que é ou não fácil para mim, o que é ou não possível, e o que é ou não simples força de vontade.

Emagrecer não é impossível para mim, passei a maior parte da minha vida em um meio termo no qual pesava mais que 67kg e menos do que hoje, que é o mais pesada que já estive. Passei muito tempo sem atividade física e ainda tenho dificuldades para voltar a comer da forma que queria, estou recomeçando agora, porque eu gosto de nadar e melhorar meu desempenho na piscina. Mas magra, de verdade, eu nunca vou ser. E você, magro, nunca vai saber o que é fazer tudo isso para se manter dentro do IMC recomendado pelas tabelas de academia.

Nunca escrevi sobre ser gorda, mas as pessoas nunca me deixaram esquecer disso. Não precisam me lembrar. Se hoje não me sinto à vontade para dizer um simples número em uma balança, sem dúvida a culpa não é exclusivamente minha. Apesar disso, nunca fui tão feliz quanto sou hoje, nem mesmo quando pesava meus 67kg. E eu nunca precisei machucar os outros gratuitamente para me sentir bem.

Agora já podem por um ponto final no ensino médio.