Dois anos sem relaxar

Não faço escova progressiva há dois anos. Nem para “abaixar”, “hidratar” ou, a pior delas, “relaxar” o cabelo. Eu costumava dizer que recorria a esses métodos porque era mais fácil de cuidar e que exigia menos tempo, mas adivinhem só: isso não é verdade. Eu poderia passar parágrafos discorrendo sobre como algumas mulheres acordam todo dia mais cedo para passar, religiosamente, chapinha no cabelo, enquanto o meu só precisa ser bem lavado e penteado de três em três dias. Falam que os produtos para o meu cabelo são mais caros. Mas eu economizo em salão, já que hoje eu vou ao cabeleireiro três vezes ao ano. No entanto, o assunto é batido. Eu não preciso repetir essas coisas. Além de que não foi nenhum desses motivos que me fez, já antes da minha última progressiva, desistir de “relaxar” o cabelo.

Eu vou contar uma história…

Quando estava na quinta série, uma professora disse algo que nunca vou esquecer. Meu cabelo era bem longo e com volume. Não vou falar que cuidava bem dele, afinal, era uma criança e ainda por cima fazia natação e estava molhando constantemente. Meu cabelo fica em contato com cloro de piscina três vezes por semana e eu tinha outros problemas básicos, como simplesmente não saber pentear direito. A tia Suzy disse: “Raila, prende esse cabelo, está me dando agonia”. Assim, entre aspas, porque foi exatamente essa a frase. Talvez possa parecer que não foi nada demais, que estava calor e por isso o sentimento dela. Mas não era isso. Eu sabia que não era e meus coleguinhas também sabiam, porque todos notaram o tom de voz usado na frase.

Por mais que eu tenha crescido em uma cidade goiana, periferia do Distrito Federal, onde a maior parte das pessoas não tinha muito dinheiro e nem cabelo de europeu, muitas meninas, na época, já iam ao salão com a mãe para esticar os fios. Tiveram outros casos de preconceito e eu sabia que aquela não era uma opinião apenas da minha professora. Na mesma época espalharam boatos de que eu estava com piolho. Tanto cabelo e tão alto, talvez essa menina tenha piolho, não é? Faz muito sentido mesmo. Com o tempo eu passei a acreditar de verdade que cabelo liso era mais prático, bonito e, a partir daí, até higiênico. No dia seguinte eu fui de cabelo preso e um ano depois comecei a alisar.

É claro que não para por aí. Em todos os salões de beleza que eu ia até então alguém queria me enfiar um produto de “relaxamento”. Só para “abaixar o volume” um pouco. Claro que era pelo lucro, mas nunca vi oferecerem uma permanente para ninguém de cabelo liso. Uma cabeleireira uma vez insistiu que raspar a minha nuca era uma ótima ideia. Minha mãe acreditou, eu também e não publicarei fotos dessa época. Às vezes a frase era inocente, como: “nossa, seu cabelo é tão grande, com uma escova deve ficar lindo”. Talvez ninguém percebesse, mas eu percebia.

Mas quando estava com 16 anos entrei para equipe de natação. Eu treinava cinco dias por semana e simplesmente não conseguia arrumar tempo para fazer “relaxamento”. Nessa época percebi uma coisa: meu cabelo não era feio. Ele era bem bonito, até. A partir daí, conheci uma cabeleireira que sabia como cuidar de mim e que respeitou meus cachinhos. Também troquei de penteado e comprei alguns cremes. Foi um alívio. Não, mais que isso, foi um tapa na cara da sociedade. Talvez ninguém tenha, de fato, percebido a minha postura de quem venceu uma revanche, afinal, só quem apanha lembra, quem bate nunca, né? Mas era essa a sensação toda vez que alguém perguntava como eu deixava o meu cabelo tão enroladinho e falava como ele era lindo, que eu nunca deveria alisar.

E é por isso que eu não “relaxo” o meu cabelo. Não pelos elogios citados, mas porque ele é lindo mesmo, independente do que tenham dito em qualquer época da minha vida, inclusive atualmente. Eu não estico, puxo ou faço testes químicos em mim mesma e nada do que digam vai me convencer de que não seja uma vontade incontrolável do próximo de ter o cabelo como o meu.

 

6 comentários

  1. Luh Moon · outubro 23, 2013

    Eu sempre soube!!! Alias Amo e faço questão de deixar meus cachos “cacheados”!!! Sim por que cabelo de afrodescendente melada é meio crespo, meio liso, meio indefinido! Mas se perguntar o que eu curto mais… Faria um permanente sem pestanejar, mas pensaria muito, MUITO mesmo antes de fazer uma progressiva!
    E sempre amei seus cachos!! ❤

  2. Doca Paz Oliveira Morais · outubro 23, 2013

    Uhuul! Caraca, muuuuito bom seu texto, eu também tenho uma história parecida haha. Meu cabelo é afro(eu também HAUHAUHAUHA) e no 3º ano do ensino médio um amigo meu(rico, diga-se por passagem), sabendo da minha popularidade no colégio disse na frente da sala inteira que caso eu viesse no dia seguinte de chapinha pro colégio e deixasse a chapinha até o fim do dia, ele me daria 50 reais. Poxa, seria uma coisa engraçada e tudo mais, porém eu pensei um pouco e vi que fazendo isso por uma brincadeira, seria igual às garotas que alisam o cabelo para ficarem mais bonitas e serem mais bem-aceitas nessa sociedade de cabelo alisado, algo que se mostra evidente na UnB.”Mas eu aliso por quê acho que assim fica mais bonito”, calma aí, você alisa por quê VOCÊ acha mais bonito(afinal o cabelo é seu e você pode fazer o que quiser com ele) ou por quê seus amigos, seu chefe, seus professores e os garotos que você quer ter como namorado acham mais bonito e assim moldaram até seu gosto “capilar”? Afinal numa sociedade que coloca o cabelo liso de europeu como algo maravilhoso, eu como bom observador digo que ali pelo ICC vejo muitooos cabelos alisados. Caramba esse texto tá ficando longo haha, mas continuando, no 2º ano do ensino médio no colégio rolou uma treta toda entre dois grupos de garotas. Qual o motivo da treta? Uma delas, negra de cabelo alisado, acusou a outra(loira de cabelo obviamente alisado) publicamente de alisar o cabelo, no qual a outra prontamente negou e jurou de pé junto que o cabelo dela era naturalmente(por favor minha filha, aquele cabelo até hoje não engana ninguém, não negue suas orignens afro!) liso. Porém essas duas garotas eram bem populares no colégio, o que gerou uma intriga FORTE, mas forte mesmo, ao ponto delas brigarem verbalmente, e uma delas(a que acusou) ficar conhecida como fofoqueira, duas-caras, difamadora, gosta de falar mal dos outros, invejosa da beleza alheia, entre outras perdulâncias e se abrirem três vertentes no colégio, dos[não sei como faria aqui](sim, além das mulheres tinha altos caras envolvidos na treta também, de quem acreditava que era liso de fábrica, de quem acreditava que ela alisado e de quem não estava nem aí e só ficava rindo da situação). Até um certo momento eu era da terceira vertente(dos que só riam da situação), porém quando eu(que sempre conversava com todos, todos os dias) percebi que a que tinha feito a “acusação” da outra alisar o cabelo estava muuuito mal-falada, sem o pessoal querer falar com ela e tal. Como eu era amigo da que acusou fui analisar a fundo a história, analisei mesmo, pois não gosto de entrar numa treta sem saber do que se trata, e de fato, a única questão era do alisamento do cabelo. Fiquei rindo muito, pois tendo certeza que o cabelo da outra era de fato alisado, que pude perceber que essa coisa da negação das suas origens é algo tão forte, mas tão forte que ela preferiu transformar a vida da outra num inferno, já que 90% das pessoas que conviviam com ela ficaram falando mal dela pelas costas, já que a que alisava era(esqueci de falar) uma das garotas mais bonitas e sensuais do colégio, tendo assim uma enorme influência entre quem se liga muito na estética(90% dos alunos do ensino médio hauhahau). Se essa história acabou simples assim? Não não, isso ocorreu em setembro e até o término do ano letivo a que acusou a outra ficou com poucos amigos e mal-falada( a que negou suas origens, e até hoje alisa nunca deixou e por muitos anos vai continuar sendo A loira gostosa), não acho que foi coincidência que esse foi o último ano da “acusadora” lá no colégio. Maldição eu saio teclando e não paro mais hehe, mas se você leu até o final(ou então pulou pro final), o resumo da história é que oras bolas, custa admitir que alisa? Custou a felicidade de uma garota por uns 3 meses :\

    • Raila Spindola · outubro 23, 2013

      Nossa. hahaha. Primeiro obrigada por se manifestar e, principalmente, se envolver tanto com a minha publicação. Isso vai além de cabelo, raça, cor… Ser gordo, magro, muito alto, muito baixo, etc. Ser diferente, nesse planeta, é simplesmente um “absurdo”. Passei mais por aqui. Abraço. 😉

  3. Fernanda Rodrigues · janeiro 3, 2014

    Rai, vou colocar aqui o que disse lá no facebook, porque acho que é legal ter o registo no blog tbm! Desde já, parabéns pelo texto!

    Eu acho que as pessoas devem pensar muito quando resolvem ser professores. A gente tem uma responsabilidade gigantesca porque marca a vida das pessoas nos pequenos gestos e nas pequenas palavras. Nunca alisei meu cabelo e nunca liguei muito para o que os outros achavam, até que eu comecei a ver o preconceito por parte dos meus alunos. Quando a coisa vem de crianças e adolescentes, isso é como um soco no estômago. Das crianças de 6 anos ouvi que parecia o Tarzan; de uma adolescente, que o meu cabelo era ruim. Desculpe, mas cabelo ruim é cabelo mal cuidado. E de cabelo mal cuidado o mundo está cheio de lisos (natural e artificial) por aí. Isso não é exclusividade de quem tem o cabelo crespo/cacheado. Uma das coisas que mais surpreendeu a minha turminha de crianças, foi que eles pediram para passar a mão no meu cabelo, eu deixei e eles soltaram um: “Mas teacher, é fofinho?” Na turma do segundo ano – eles têm 8 anos – me perguntaram como eu deixava o meu cabelo assim. Respondi que nasci com o cabelo crespo e, para a minha surpresa, uma das alunas perguntou “Teacher, o que é crespo?”. Então, fico pensando: 1. que mundo é esse em que, em um país miscigenado como o nosso, as crianças não sabem/conhecem o cabelo crespo? 2. Se nós, cacheadas, não assumimos os cachos, a nossa raiz, como podemos reclamar dessa sociedade opressora?! Realmente acho que quem usa cachos em um mundo tão distorcido, mostra força de personalidade ao quebrar as regras e merece sim, os meus parabéns por não querer ser igual a todo mundo e ser mais um produto enlatado!
    Raila, uma coisa que você retrata no seu texto e que me irrita profundamente é a questão das idas aos salões e das tentativas de tentar empurrar produtos para abaixar/controlar/domar/alisar/relaxar os cabelos. Da última vez que fui, a moça lá do salão queria porque queria que eu fizesse um relaxamento na raiz do cabelo, só pra “abaixar o volume da raiz”. Embora nunca tenha alisado, sempre sofri pressão pra lutar contra o tal do volume. Agora – e nesse ponto me assumi de verdade em 2013 – eu quero mais volume e desculpe a palavra, foda-se o mundo. Até hoje as pessoas torcem o nariz quando me ouvem falando isso, mas é justamente esse volume que tem o poder e a beleza. Então, não, o meu/nosso cabelo não é ruim, não é rebelde, não é duro, não nega as raízes afro e sim, sou extremamente feliz por isso! Se as pessoas insistem em ter a mente pequena e acreditar que só é bonito aquilo que passa na novela das 8h, o problema é todo delas.
    Sobre a política das cotas (o mesmo vale pro prouni), quanto mais vejo/leio/me atualizo sobre o assunto, mais na dúvida eu fico sobre o que pensar. Não pelas cotas em si, mas por todo o descaso educacional que isso envolve – no sentido de mandar todo mundo pra universidade e não ter uma política efetiva de melhoria da educação (básica e superior). Se eu, que estou na cidade mais rica do país, sente falta de uma política publica de qualidade nesse sentido, imagine quem está nos lugares mais distantes. Acabo ficando dividida entre a questão emergencial dessas medidas (porque também tenho consciência que algo deve ser feito agora) e a falta de medidas a longo prazo. Dar o peixe ou ensinar a pescar?! Não sei. De qualquer forma, se vocês forem debater isso, quero presenciar! Quem sabe as ideias de vocês não me deem alguma luz (seja a favor ou conta)?
    Rai, seu desabafo provocou muita reflexão – o que considero um presente! – e tal texto só poderia ter vindo de você! Tenho muito orgulho de ter te conhecido quando você era pequena e ver a mulher que você se tornou! Parabéns e continue assim, porque a sociedade querendo ou não, você está muito diva, toda cacheada! ❤

    Um beijo e um feliz e cacheado 2014,

    http://algumasobservacoes.blogspot.com.br/
    http://escritoshumanos.blogspot.com.br/
    http://nossocdl.blogspot.com/

    • Raila Spindola · janeiro 5, 2014

      Te admiro muito, Fê. Te admiro como amiga e como pessoa e, mesmo sem ter contato com você como profissional, sei que a admiro também como professora. Essa minha professora foi só uma pequena pedra no meu caminho levando em conta a quantidade assustadora de grandes educadores, professores, mestres e doutores que passaram pela minha vida. Beijos e a batalha é longa, mas a recompensa vale!

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