O sol é para poucos

Hoje um estranho entrou na minha casa para roubar. Ele pulou o portão, abriu a porta e, ao dar de cara comigo, fugiu sem levar nada. A situação durou menos de cinco segundos e o sujeito não esperava encontrar alguém em casa, caso contrário não se assustaria com uma mulher parada e calada. Tomei as devidas providências, liguei para a polícia e avisei os vizinhos, mas a verdade é que gastei um bom tempo pensando sobre o que leva as pessoas a fazerem esse tipo de coisa: entrar em casas e tomar bens que não as pertence.

Já faz algum tempo que, na minha aula de psicologia, o professor deixou uma questão interessante no ar: “O sol brilha para todos?” E minha resposta, desde sempre, foi que não. Infelizmente a vida é rodeada de pequenas sortes e oportunidades e não dá para usar como argumento que “todo mundo tem capacidade para lutar pelo seu lugar ao sol” quando, às vezes, não se aprendeu em casa que esse lugar é alcançável. As crianças aprendem, no geral, o que os pais ensinam. Os meus avós incentivavam o estudo, assim como meus pais, no entanto isso é um caso entre muitos. Realmente se espera que uma mãe desesperada, analfabeta e com oito filhos passando fome ensine para suas crianças que o correto é estudar e fazer medicina em uma faculdade pública? Ou geralmente elas os instruem a trabalhar desde cedo para colocar comida em casa? E a culpa também não é essas mães, que não possuem a mínima ideia do que acontece fora de suas fazendas. Talvez você esteja aqui hoje, lendo meu blog, porque os seus avós e os seus pais fizeram diferente (ou não, talvez ele já tivessem dinheiro mesmo), no entanto é preciso ter noção de que é uma exceção com – sim, isso mesmo, caro colega – muitíssima sorte.

E o que faz um garoto cometer esse tipo de crime pelo qual quase passei hoje é isso. Achar que nós, que temos mais que eles, somos filhinhos de papai escrotos que nunca precisaram trabalhar na vida para ter alguma coisa. Que somos sortudos favorecidos (o que não deixa de ser verdade) e que, muitas vezes, merecemos ser roubados. Tenho defensores públicos na minha família e o que eles mais escutam lá é: “Doutor, o pai desses moleques podem dar outro pra eles”. E como posso condenar alguém por invejar algo que ele não teve a oportunidade ou sorte, como preferir, de ter na vida? Porque me desculpem os capitalistas, mas o sol não brilha para todos e a filosofia de correr atrás para conseguir não é tão simples assim. Infelizmente, no fim das contas, a única coisa que consegui sentir por aquele infeliz foi dó. Ele ia me prejudicar por algo que não tenho culpa, mas o rapaz também não tem culpa por ser um cidadão dessa pátria que nos pariu, da qual somos todos vítimas.

Confissão

Tenho uma coisa muito séria para confessar: eu sou uma pessoa romântica. Talvez meus amigos mais próximos riam com a informação, pode soar meio óbvio ou ridículo, já que muitas vezes mostro isso, mas a verdade é que realmente tento esconder essa fraqueza do restante do mundo. Alguns caem no truque, se assustam quando a máscara vai caindo, mas acredito que a maioria note, não sou boa atriz.

As histórias me fazem falta, aquele acelerar de coração, alguém sobre quem pensar e falar. Eu sou boba e me sinto sozinha e fraca assim, de repente. Daí tudo começa a se misturar aqui dentro: sinto falta de quem não sentia mais, revivo histórias velhas, invento paixões platônicas por pessoas que conheço pouco ou que nunca me passaram pela cabeça dessa forma.

Não é desespero – mentira, é um pouco – tem mais ligação com saudade. Também sinto falta de mim, falta daquela pessoa destemida das histórias. Eu me quero de volta, tirar a vulnerabilidade daqui de dentro, pegar a máscara sobre a estante, respirar fundo e colocar no rosto…

Pensando bem, pode ser só TPM.