O Último

O chão coberto de grama iluminado pelo sol da manhã, com algumas árvores solitárias espalhadas sobre a sua superfície; seus troncos retorcidos e de casco áspero, algumas poucas de galhos quase nus, a sequidão do ar, o chão em sombras cheio de folhas marrons, mortas e quebradiças. Certas árvores arriscavam até mesmo florescer precocemente, algumas de forma singela, com uma ou duas flores, outras descaradamente, cheias de manchas lilás em suas copas. Diante daquela paisagem nostálgica e vazia podia-se notar o concreto, uma linha espessa formando um caminho cinza na paisagem natural, uma estrada. O clima estava quente, mesmo ainda sendo cedo, sendo perceptível a aproximação da primavera.

Cornélio caminhou devagar, a roupa simples e surrada, os óculos pendurados na gola da camiseta preta e os cabelos grisalhos, oleosos e mal cuidados. Sentiu a brisa fraca e morna daquele dia atingir o seu rosto, então respirou fundo, ouvindo o cantar distante dos bem-te-vis. Passara muitos anos, tantos que o tempo apagara todas as marcas físicas do passado e ele nem mesmo conseguia recordar direito tudo que acontecera naqueles dias.

O túnel formado pelas árvores que se encontravam sobre o caminho de concreto, próximo à antiga biblioteca, e o cheiro doce da vegetação que se aproximava, trazia lembranças vagas dos sorrisos jovens que já encheram o lugar. Na primeira vez que pisara ali, Cornélio tinha pouco menos de vinte anos e ainda era um aluno da faculdade. Aquele fora seu local favorito durante todo o período do ensino superior, por mais que agora já estivesse vazio.

Lembrava-se do regador de grama que, em tardes secas como aquela, mantinha a vegetação ao seu redor tão verde e viva que nem parecia pertencer à mesma paisagem das outras plantas do local. O ambiente costumava ser tão bom, alegre e jovial, sentira seu coração apertado por pensar que não tinha volta.
Continuando a caminhada deparou-se com um grande e antigo edifício de concreto, que aparentavam estar ali há um século suportando tempestades e calor, mas poderiam agüentar mais uns quinhentos anos. As dezenas de janelas de vidro escuro refletiam a luz e a paisagem ao redor, enquanto a sua sombra trazia o conforto da proteção. Em seguida voltou a sentir-se em pedaços, perguntou-se novamente se seria o único naquele lugar. Se havia mais alguém, será que ele também estava desmotivado?

Cornélio era o tipo de homem que sempre amou pessoas, barulho, risada e alegria, mas não tinha ideia de como resistira sozinho. Talvez fosse a esperança que o tivera mantido de pé por tanto tempo, mas até ela também o estava deixando. A cidade estava vazia, o país estava vazio e talvez, a essa altura, todo o planeta já tivesse sido afetado por aquele vazio também. Não sabia o que estava acontecendo, para onde as pessoas estavam indo ou sendo levadas, somente sabia que estava sendo assim.

Um dia acordou e sua esposa não estava na cama nem no trabalho. O processo se repetiu com seus filhos, irmãos, primos, sobrinhos… Depois de um tempo, quando estava indo para o serviço, notou que seus colegas também desapareciam. Ligou a televisão e soube que o mesmo estava acontecendo em todo o país. Primeiro sentiu medo de ser levado, mas depois de algumas semanas ou meses, acabou por desejar exatamente o contrário. Passou os últimos meses e anos passeando e relembrando sua vida. Agora estava sentado no jardim de sua antiga universidade, tão vazia quanto o restante dos outros lugares em que estivera. Fechou os olhos e não sentiu mais nada. A esperança se fora de vez e Cornélio também.

2 comentários

  1. Márcia Thiara (@marciathiara) · setembro 5, 2011

    OMG!! Eu comecei a sentir um formigamento na pele quando li sobre o vazio.. Eu consegui imagina-lo andando por cada lugar eu EU conheço e não encontrando ninguém. Nem aquela sensação de medo por estar sem ninguém por perto.

    Tive a impressão que de algumas pessoas ele poderia ter sentido falta, outras não. Mas que ele se acostumou com o vazio a sua volta.

    E quando ele se sentou no jardim, até há algum tempo atrás habitado por felicidade, vida e verde. Eu parei.

    E quando eu li a ultima frase senti um arrepio pelo corpo tão grande… Que foi até estranho. Forte demais, lembranças de mais, e por alguns isntantes, senti medo de ter o mesmo final que ele…

    Tradução: amei o texto!

  2. Luh · setembro 9, 2011

    Seu talento é uma das coisas que mais gosto em você. As palavras se atraem por você de um modo que só quem tem relação com elas consegue perceber. Elas se enamoram de você, envolvem você e se harmonizam com seus pensamentos de uma forma tão singela e tão bonita que dá vontade de chorar…
    Perfeito! Simplesmente perfeito! Simples, forte, belo… Lindo!
    Obrigada por compartilhar talento tão brilhante!

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